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“(..) a decadência [da liturgia] chega quando o culto divino é submetido ao sentimentalismo e ao ativismo pessoais de clérigos e leigos que, penetrando-o, transformam-no em obra humana e entretenimento espetacular: um sintoma hoje é, por exemplo, o aplauso na Igreja, que sublinha indistintamente o batismo de um recém-nascido e a saída de um caixão em um funeral.” (Pe. Nicola Bux, consultor do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, em entrevista a Zenit)
Santo António Maria ClaretNão há praticamente nenhum crime que mais ofende a Deus que a comunhão sacrílega. Os Santos Padres o demonstram em palavras e exemplos extraordinários. O comungante em pecado mortal comete um crime maior que Herodes, diz Santo Agostinho, mais assustador do que Judas, diz São João Crisóstomo, mais terrível do que o cometido pelos judeus, crucificando o Salvador, dizem outros santos.E a tudo isso, acrescenta São Paulo, será réu do Corpo e Sangue de Cristo, que diz a Glosa: a ser punido como se, com as suas mãos, tivesse morto o Filho de Deus.A comunhão sacrílega é um crime tão grande que Deus não espera para o punir no inferno. Ele já começa neste mundo a indignar-se com tamanho crime, permitindo a doença e a morte. No tempo dos Apóstolos, segundo São Paulo, muitos dos males de alguns derivaram de comunhões sacrílegas, sofrendo ferimentos muito graves e outros morreram. São Cipriano refere que alguns de seu tempo, não sendo dignos de receber a Sagrada Comunhão, depararam-se com uma dor intolerável nas entranhas e às portas da morte. São João Crisóstomo conhecia muitos possuídos por demónios por causa deste crime. O Papa São Gregório assegura que, em Roma, houve grandes estragos devido à peste que apareceu, por se terem continuado as diversões imorais e os espectáculos de impurezas após a Comunhão pascal.Lemos na vida de um monge de São Bernardo se atreveu a comungar em pecado mortal. Algo terrível! Logo que o Santo lhe deu a Sagrada Hóstia, rebentou como Judas e como ele foi condenado eternamente.Segundo o famoso P. Arbiol, havia uma senhora que, num evento solene foi à confissão e o confessor, a encontrando numa ocasião próxima de pecado, ele disse que não poderia absolver a menos que primeiro se afastasse da ocasião, e disse-lhe ainda que naquele dia não podia receber a Sagrada Comunhão. Mas ela quis receber o Corpo de Jesus, independentemente do que o confessor lhe tinha dito, e imediatamente tomou a Hóstia Sagrada na garganta, engasgada, caindo morta na mesma igreja, na presença de muitas pessoas.Um grande número de casos desta natureza poderia referir-se não só antigo mas igualmente à idade moderna, mas isso não acontece muito, porque, creio eu, que os bons, com santo temor, se retraem de frequentar os Santos Sacramentos e Jesus, pelo amor que nos tem para o nosso bem, obviamente prefere deixar impune o sacrilégio e receber os bons muitas vezes, estes que não se atrevem a tomá-lo, assustados com a punição dos pecadores.Mas se a estes últimos pecadores não os pune de forma visível, já o está a fazer invisivelmente: com a cegueira de entendimento, dureza de coração, do seu abandono neste mundo, e em seguida, no outro, com o castigo eterno do Inferno. Encomendemo-nos à Santíssima Virgem Maria, para que alcancemos a ajuda que precisamos para receber com frequência e dignamente os Sacramentos.E para que conheçamos o quanto convém receber dignamente os Sacramentos e os diferentes efeitos causados por eles, um outro caso que li na vida dos Santos Padres:Houve um Bispo muito virtuoso, que, tendo sido avisado duas pessoas que viviam de maneira ilegal aos olhos de Deus, suplicou ao Senhor que se dignasse a manifestar o pecado na consciência de cada um deles. Deus ouviu suas preces, e um dia depois de ter distribuído a Sagrada Comunhão a uma grande multidão, viu que cada um tinha seu rosto negro como o carvão, outros olhos brilhantes, e outros muito elegantes, vestidos de branco. O bom bispo repetiu a súplica, para que Deus lhe manifestasse aquele mistério. Naquele instante, apareceu um anjo, e disse: “Fica sabendo que os que têm a cara preta são impuros e desonestos, os olhos brilham outros são avarentos, usurários e vingativos, e aqueles que parecem tão bonitos, vestidos brancos são aqueles que estão adornados de graça e de virtudes.” Aproximaram-se então as duas pessoas acusadas de viverem em pecado e o Bispo também as viu bonitas e resplandecentes. O santo bispo pensou que fora enganado, mas o Anjo disse-lhe que de facto era verdade o que se dizia deles, mas tendo-se afastado do pecado e fazendo uma boa confissão, eles foram perdoados de todos os seus pecados.Portanto irmão, amado em Jesus Cristo, eu imploro e peço para não receberes a Sagrada Comunhão em pecado mortal, mas não te preocupes se te encontras nesse tão miserável estado. Confessa-telogo que possas, exercita e pratica fervorosamente muitos actos de humildade, confiança e de amor a Deus e,com esta disposição, colherás grandes frutos celestiais que nos são dados na Sagrada Eucaristia, para aqueles que A recebem dignamente.Os frutos principais da Sagrada Comunhão dignamente recebida:1.º Aumenta a graça.2.º Dá luz à alma para distinguir o bem do mal, para segui-lo e evitá-lo, respectivamente.3.º Aviva fé e esperança.4.º Estimula a caridade.5.º Modera a raiva e outras paixões, preservando-nos do pecado.6.º Estamos unidos com Jesus Cristo.7.º Dá – nos dá um espírito manso.8.º Repele os demónios, para que não nos tentem tantas vezes.9.º Acalma o remorso da consciência.10.º Dá-nos uma grande confiança em Deus, na hora da morte.11.º Dá força e alimenta a alma.12.º Finalmente, dá-nos uma ajuda especial para perseverar no bem e chegar à glória eterna, sendo penhor de salvação.Fonte: Blog A Saúde da Alma
Chegou-me a seguinte mensagem:
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“Gostaria de ter um respaldo maior sobre a questão assistir a missa ou
participar da missa.
Vejo em muitas paroquianos dizendo que vai assitir.
Eu sei que a igreja nos convida a participar, até porque o ato de comungar é
a a maior participação.
Estou certo?”
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Ao que respondi:
Bom, o problema maior é na verdade uma confusão entre os vários significados das palavras. *Assistir* e participar podem querer dizer coisas diferentes; “assistir” pode ser “ajudar” (como um “assistente”) e pode ser “ver passivamente”, e “participar” pode ser compreendido como uma ação ativa (“participo de um time de futebol”) ou como receber uma perfeição (a cerveja gelada “participa” do gelo, sem ser gelo; a palavra “gelada” é aliás o “particípio” do verbo “gelar”).
A Igreja nos chama à participação no sentido de receber uma perfeição, e é neste sentido que receber o Santíssimo Sacramento é a maior participação. Estamos assim participando de Cristo, ou seja, recebendo d’Ele uma perfeição. Esta participação pode (mas não precisa) ser expressa exteriormente (o primeiro sentido que dei desta palavra). Assim, por exemplo, não é necessário responder na *Missa*. É melhor participar silenciosamente que responder alto e não participar verdadeiramente, por exemplo. O sujeito que está cantando aos brados pode perfeitamente não estar participando, por não estar somando o seu sacrifício ao de Cristo na Cruz.
Já *assistir* como quem assiste passivamente a um jogo de futebol não é ao que a Igreja nos chama, mas *assistir* como “assistente”, ou seja, somando o nosso sacrifício ao de Cristo, que é oferecido pelo sacerdote, é o “assistir” que a Igreja nos pede e recomenda.
Assim, não se trata de uma escolha entre *assistir* passivamente e participar fisicamente. É na verdade – como aliás em quase tudo – uma escolha muito mais sutil, em que o caminho certo é o do meio.
Em uma extremidade temos a “participação” meramente física, meramente ativa ou emocional; nele não há assistência, não há participação verdadeira. Só atos contam (levantar, sentar, ajoelhar, cantar, chorar, comungar). Não é isso que a Igreja nos pede e recomenda.
Na outra extremidade, oposta àquela, temos a “assistência”, igualmente falsa, que é meramente passiva. É ir para a *Missa* e responder ou não, cantar ou não, comungar ou não, mas ficar pensando em outra coisa ou simplesmente tendo fruição estética, vendo se a casula do padre tem furos de traça ou deliciando-se a música, etc., sem somar o sacrifício individual ao de Cristo na Cruz. Tampouco é isso que a Igreja nos pede e recomenda.
O que a Igreja nos pede e recomenda é que assistamos, em silêncio ou não, cantando ou não, mas ativos *em nossa disposição interior de somar o nosso sacrifício pessoal ao de Cristo na Cruz*, e que assim participemos, em silêncio ou não, cantando ou não, recebendo de Cristo a perfeição de sermos santos, sendo santificados (particípio) pelo que é Santo.
Cabe ainda lembrar que o preceito da Igreja é ouvir *Missa* inteira todo domingo e dia santo. Assim, se a pessoa só vai fisicamente, ela não está pecando (apesar de não estar tendo tantos méritos, etc.), mas pecaria se ficasse em casa sob o pretexto de não conseguir participar.
Do mesmo modo, o preceito é de comungar uma vez por ano, no tempo da Páscoa. Se a pessoa está em pecado mortal (ou seja, se depois de sua última confissão ela faltou a uma *missa* dominical ou ferial, se ela mentiu, se ela roubou, se ela fornicou, se ela cometeu adultério – ainda que em pensamento -, se ela blasfemou, se ela assistiu a pornografia…) ela não pode nem deve comungar. Nesse caso, a comunhão não seria comunhão, isto é, não seria participação em Cristo; seria, nas palavras de São Paulo, “comer e beber a sua própria condenação”.
http://www.luisguilherme.net/HSJOnline/assistirouparticipar.html

“A idéia de uma liturgia frutuosa e criativa inevitavelmente perde o sentido do sagrado e, portanto, nos aliena de Deus e nos leva ao pecado (…) Celebrar Missas criativas é uma profanação do sentido de sagrado porque isso nos afasta de Deus. O ministro do culto nunca deve ser um ator, mesmo um ator medíocre e uma fonte de escândalo, mas ele deveria pensar que seu dever principal é servir a Deus, nunca o seu próprio desejo irrefreado de representar o protagonista” (Fonte: http://rorate-caeli.blogspot.com/2010/04/creative-liturgy-alienates-us-from-god.html, através de http://fratresinunum.com/2010/04/14/%e2%80%9cliturgia-criativa%e2%80%a6-nos-aliena-de-deus-e-nos-conduz-ao-pecado-%e2%80%9d/).

“(..) a decadência [da liturgia] chega quando o culto divino é submetido ao sentimentalismo e ao ativismo pessoais de clérigos e leigos que, penetrando-o, transformam-no em obra humana e entretenimento espetacular: um sintoma hoje é, por exemplo, o aplauso na Igreja, que sublinha indistintamente o batismo de um recém-nascido e a saída de um caixão em um funeral.” (Pe. Nicola Bux, consultor do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, em entrevista a Zenit)
Colombo (Sri Lanka), Dom Ranjith declara guerra aos desvios litúrgicos dos Neocatecumenais [e dos Carismáticos] : “Vetados os cantos e danças durante a missa, obrigatória a comunhão de joelhos”
CIDADE DO VATICANO (Petrus) – Dom Malcolm Ranjith é alguém que entende de Liturgia. Foi, de fato, Secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos antes de Bento XVI nomeá-lo, no ano passado, arcebispo de Colombo, no Sri Lanka. O Papa confia muito nele, a tal ponto que deve criá-lo Cardeal no próximo consistório. Dom Ranjith (na foto) se tornou muito admirado nos seus anos de serviço no Vaticano pela nobre defesa da gloriosa tradição litúrgica da Igreja, uma batalha que retomou energicamente em sua nova diocese, proibindo extravagância e improvisações durante a celebração da Eucaristia e “recomendando” a administração da Comunhão apenas sobre a língua e aos fiéis ajoelhados, como já é o caso durante a missa presidida pelo Pontífice. Mas aqui está o texto completo, rico em muitíssimos elementos, enviado pelo arcebispo de Colombo a seus sacerdotes e fiéis, com particular referência àqueles pertencentes aos movimentos (entre os quais recai seguramente o Caminho Neocatecumenal, mas Dom Ranjith não o cita explicitamente) que, habitualmente, se aproximam da Eucaristia de um modo diferente do estabelecido pela Igreja ou participam da missa com cantos e danças em torno do altar, permitindo, contudo, a pregação por leigos durante a celebração:
“Queridos irmãos e irmãs,
Recentemente, algumas pessoas e movimentos católicos de renovação desenvolveram muitos exercícios para-litúrgicos não previstos pelo calendário paroquial ordinário. Apreciando as numerosas conversões, o valor do testemunho, o entusiasmo renovado pela oração, a participação dinâmica e a sede da Palavra de Deus, como bispo diocesano e administrador geral dos mistérios de Deus na igreja local a mim confiada, sou o moderador, o promotor e o guardião da vida litúrgica da arquidiocese de Colombo. Como tal, vos convido a refletir sobre os aspectos litúrgicos e eclesiológicos relacionados a esta nova situação e vos peço insistentemente que respeiteis as diretrizes enunciadas na presente circular de efeito imediato. A Eucaristia é a celebração do mistério pascal por excelência dado à Igreja pelo próprio Jesus Cristo. Jesus Cristo é o princípio de toda liturgia na Igreja e por esta razão toda liturgia é essencialmente de origem divina. Ela é o exercício da Sua função sacerdotal e, portanto, não é certamente um simples empreendimento humano ou uma inovação piedosa. Na verdade, é incorreto definí-la uma simples celebração da vida. É muito mais do que isso. É a fonte e o ápice do qual todas as graças divinas enchem a igreja. Este sagrado mistério foi confiado aos apóstolos pelo Senhor e a Igreja cuidadosamente preservou a celebração ao longo dos séculos, dando vida à tradição sagrada e a uma teologia que não cedem à interpretação individual ou privada. Nenhum padre, conseqüentemente, diocesano ou religioso que seja, proveniente de uma outra arquidiocese ou mesmo do exterior, está autorizado a modificar, adicionar ou suprimir qualquer coisa no rito sagrado da missa. Não se trata de uma novidade, mas de uma decisão tomada em 1963 pela Constituição “Sacrosanctum Concilium” (22, 3), a Constituição Dogmática sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II, posteriormente reiterada várias vezes em documentos como “Sacramentum Caritatis”, de Sua Santidade Bento XVI, e “Ecclesia de Eucharistia” do Papa João Paulo II, de venerada memória. A este respeito, convém mencionar explicitamente alguns elementos: os sacerdotes não estão autorizados a modificar ou improvisar a Oração Eucarística ou outras orações imutáveis da Missa — mesmo quando se trata de dar detalhes sobre um elemento já presente — cantando respostas ou explicações diferentes. Devemos compreender que a liturgia da Igreja é estreitamente ligada à sua fé e sua tradição: “Lex orandi, lex credendi”, a regra da oração é a regra de fé! A liturgia nos foi dada somente pelo Senhor, ninguém mais, portanto, tem o direito de mudá-la; as manifestações do tipo “Praise and Worship” (literalmente “louvor e adoração”, mas aqui diz respeito a uma corrente musical de estilo gospel, NdT) não são permitidos no rito da Missa. A música desordenada e ensurdecedora, as palmas, os longos discursos e os gestos que perturbam a sobriedade da celebração não são autorizados. É muito importante que compreendamos a sensibilidade cultural e religiosa do povo do Sri Lanka. A maioria dos nossos compatriotas são budistas e por este motivo estão habituados a um culto profundamente sóbrio; por sua vez, nem os muçulmanos nem os hindus criam agitação em sua oração. Em nosso país, além do mais, há uma forte oposição às seitas cristãs fundamentalistas e nós, como católicos, nos esforçamos para fazer compreender que os católicos são diferentes dessas seitas. Alguns destes chamados exercícios de louvor e adoração se assemelham mais aos exercícios religiosos fundamentalistas que a um culto católico romano. Que seja permitido respeitar a nossa diversidade cultural e a nossa sensibilidade; a Palavra de Deus prescrita não pode ser alterada aleatoriamente e o Salmo responsorial deve ser cantado e não substituído por cantos de meditação. A dimensão contemplativa da Palavra de Deus é de suma importância. Em alguns serviços para-litúrgicos as pessoas hoje têm a tendência a se tornar extremamente faladoras e tagarelas. Deus fala e nós devemos escutá-Lo; para ouvir bem, o silêncio e a meditação são mais necessários que a exuberância cacofônica; os sacerdotes devem pregar a Palavra de Deus sobre os mistérios litúrgicos celebrados. É expressamente proibido aos leigos pregar durante as celebrações litúrgicas; a Santíssima Eucaristia deve ser administrada com extremo cuidado e máximo respeito, e exclusivamente por aqueles autorizados a fazê-lo. Todos os ministros, ordinários e extraordinários, devem estar revestidos dos ornamentos litúrgicos apropriados. Recomendo a todos os fiéis, inclusive religiosos, receber a comunhão com reverência, de joelhos e na boca. A prática da auto-comunhão é proibida e pediria humildemente a cada sacerdote que a permite que suspendesse imediatamente esta prática; todos os sacerdotes devem seguir o rito da missa como determinado, de modo a não dar espaço a comparações ou opor as Missas celebradas por alguns sacerdotes às outras Missas ditas pelo resto dos sacerdotes; as bênçãos litúrgicas são reservadas exclusivamente aos ministros da liturgia: bispos, sacerdotes e diáconos. Todos podem rezar uns pelos outros. Recomenda-se insistentemente, entretanto, não usar gestos que podem provocar fantasias, confusões ou uma interpretação errônea”.
Fonte: Fratres in Unum http://fratresinunum.com/2010/03/04/o-machado-de-dom-ranjith-sobre-os-movimentos-de-renovacao-nao-as-dancas-palmas-arbitrariedades-na-liturgia-louvor-e-adoracao/>
A dança não é uma forma de expressão cristã. Já no século II, os círculos gnósticos-docéticos tentaram introduzi-la na Liturgia. Eles consideravam a crucificação apenas como uma aparência: segundo eles, Cristo nunca abandonou o corpo, porque nunca chegou a encarnar antes de Sua paixão; consequentemente, a dança podia ocupar o lugar da Liturgia da Cruz, tendo a cruz sido apenas uma aparência.
As danças cultuais das diversas religiões são orientadas de maneiras variadas: invocação, magia analógica, êxtase místico; porém, nenhuma dessas formas corresponde à orientação interior da Liturgia do "sacrifício da Palavra". É totalmente absurdo, na tentativa de tornar a Liturgia "mais atraente", recorrer a espetáculos de pantominas de dança, possivelmente com grupos profissionais que, muitas vezes, terminam em aplauso.
Sempre que haja aplauso pelos aspectos humanos da Liturgia, é sinal de que a sua natureza se perdeu inteiramente, tendo sido substituída por diversão de gênero religioso.
Joseph Ratzinger, Introdução ao Espírito da Liturgia
http://paroquiajesusbompastor.blogspot.com/2009/11/missa-pre-balada-21112009-20h30.html
Chamada do evento:
“Será uma missa muito festiva, com muita música, dança e a presença do DJ Willian.“
“A liturgia não vive de surpresas “simpáticas”, de intervenções “cativantes”, mas de repetições solenes (…) Também por isso ela deve ser “predeterminada”, “imperturbável”, porque através do rito se manifesta a santidade de Deus. Ao contrário, a revolta contra aquilo que foi chamado “a velha rigidez rubricista”, (…) arrastou a liturgia ao vórtice do “faça-você-mesmo”, banalizando-a, porque reduzindo-a à nossa medíocre medida” (Cardeal Ratzinger, A Fé em crise; 1985).
“Atualmente também deveria ser redescoberta e valorizada a obediência às normas litúrgicas como reflexo e testemunho da Igreja, una e universal, que se torna presente em cada celebração da Eucaristia. O sacerdote, que celebra fielmente a Missa segundo as normas litúrgicas, e a comunidade, que às mesmas adere, demonstram de modo silencioso mas expressivo o seu amor à Igreja. (…) A ninguém é permitido aviltar este mistério que está confiado às nossas mãos: é demasiado grande para que alguém possa permitir-se de tratá-lo a seu livre arbítrio, não respeitando o seu caráter sagrado nem a sua dimensão universal.” (Papa João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, n. 52)
“Cesse a prática reprovável de que sacerdotes, ou diáconos, ou mesmo os fiéis leigos, modificam e variem, à seu próprio arbítrio, aqui ou ali, os textos da sagrada Liturgia que eles pronunciam. Quando fazem isto, trazem instabilidade à celebração da sagrada Liturgia e não raramente adulteram o sentido autêntico da Liturgia” (cf. Redemptionis Sacramentum, nº. 59).
Nada há de novo debaixo do sol, diz a Bíblia Sagrada. A verdade é uma: não muda e não pode mudar. E os erros, apesar de múltiplos, se repetem sempre.
Deus é sempre o mesmo, sempre novo: “
A verdade, por ser o reflexo de Deus imutável, não muda: é sempre antiga e sempre nova. Assim ensina São Paulo: “
Por outro lado, os erros humanos são sempre repetidos, recopiados. Já disse alguém que o diabo não tem muita originalidade, repete-se sempre. Que foi a tentação e queda dos nossos primeiros pais senão a repetição do gesto orgulhoso de Lúcifer, recusando-se a servir a Deus? Que foram as heresias do passado e a moderna religião do homem senão a iteração da antiga pretensão humana de se fazer deus? E a moderníssima teologia da libertação que é senão a reedição do saduceísmo dos tempos de Cristo? E os erros ditos progressistas, como o liberalismo, o ecumenismo, que são senão doutrinas errôneas antigas já condenadas pelos Papas e Concílios da Igreja, maquiladas e reapresentadas como ultra-modernas? A própria Missa Nova não é senão uma cópia da liturgia anglicana de Cramer do século XVI, mesclada de outras modificações que datam do tempo da reforma protestante! E a contínua retomada de erros antigos em filosofia, sociologia, economia, etc.?! 19
Ironicamente perguntava-se Bertrand Russel por que os homens insistem em repetir erros antigos, havendo tantos erros novos a escolher (!).
A solução para os problemas novos que surgem, sejam eles econômicos, morais, sociais ou religiosos, são os ensinamentos eternos de Nosso Senhor.
Aliás, já disse um grande sociólogo:
A verdade não muda com os tempos. Não é torcermos o Evangelho de Cristo para adaptá-lo ao homem moderno. É o homem moderno – que no fundo é igual aos seus ancestrais – que deve se adaptar aos ensinamentos eternos de Cristo. Só assim será livre e feliz.
Não nos iludamos: a crise em que se debate o mundo não é sobretudo social ou econômica; é principalmente uma crise moral e religiosa.
Deixemos o pecado! Voltemos para Deus! Vida nova! Feliz Ano Novo para todos, sem a repetição de velhos erros!
Estas coisas perecerão, mas Tu permanecerás, e todas envelhecerão como um vestido… Tu porém és sempre o mesmo, e os teus anos não têm fim” (Salmo 101, 27). Jesus Cristo é sempre o mesmo ontem e hoje; Ele o será também por todos os séculos. Não vos deixeis levar por doutrinas várias e estranhas” (Hebr. 13, 8-9). Por isso a verdade não tem idade nem época. O que era verdadeiro no tempo de Cristo, é verdade hoje e o será sempre. E o que era pecado no tempo de Cristo, foi na Idade Média, é hoje e o será sempre. “Não seriam necessárias muitas leis para a sociedade. Bastam os 10 mandamentos da Lei de Deus: observando-os tudo estaria resolvido”.
Retirado do livro ”Quer agrade quer desagrade”, Padre Fernando Arêas Rifan
É totalmente absurdo, na tentativa de tornar a Liturgia “mais atraente”, recorrer a espetáculos de pantominas de dança, possivelmente com grupos profissionais, que muitas vezes, terminam em aplauso. Sempre que haja aplauso pelos aspectos humanos na Liturgia, é sinal de que a sua natureza se perdeu inteiramente, tendo sido substituída por diversão de gênero religioso.” (RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia. Paulinas: Prior Velho (Portugal), 2006, p.147)
Palavras ao rezar o Angelus com os peregrinos neste domingo
CASTEL GANDOLFO, domingo, 16 de agosto de 2009 (ZENIT.org).- Bento XVI rezou o Angelus com os peregrinos ao meio-dia deste domingo, no pátio interno do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo. Estas foram as palavras do Papa na introdução da oração mariana.
* * *
Queridos irmãos e irmãs!
Ontem nós comemoramos a grande festa da Assunção de Maria ao Céu, e hoje lemos no Evangelho estas palavras de Jesus: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu” (Jo 6, 51). Não se pode ficar indiferente a esta correspondência, que gira em torno do símbolo do “céu”: Maria foi “assunta” ao local de que seu filho tinha “descido”. Evidentemente, esta linguagem, que é bíblica, expressa em termos figurados coisas que não entram completamente no mundo dos nossos conceitos e da nossa imaginação. Mas vamos parar um momento para refletir! Jesus se apresenta como o “pão vivo”, ou seja, alimento que contém a própria vida de Deus e é capaz de comunicá-la a quem d’Ele se alimenta, o verdadeiro nutrimento que dá a vida, nutre realmente em profundidade. Jesus diz: “Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo”. Bem, de quem o Filho de Deus tomou esta sua “carne”, a sua humanidade concreta e verdadeira? Da Virgem Maria. Deus recebeu d’Ela o corpo humano para entrar na nossa condição mortal. A sua vez, no fim da existência terrena, o corpo da Virgem foi assunto ao céu por Deus e entrou na condição celeste. É uma espécie de intercâmbio, no qual Deus tem sempre a plena iniciativa, mas, como vimos em outras ocasiões, tem também necessidade de Maria, do “sim” da criatura, da sua carne, da sua existência concreta, para preparar a matéria do seu sacrifício: o corpo e o sangue, a ser oferecido na Cruz como instrumento de vida eterna e, no sacramento da Eucaristia, como alimento e bebida espirituais. Leia o resto deste post »

Queridos irmãos e irmãs:
O patriarca Germano de Constantinopla, de quem quero falar hoje, não pertence às figuras mais representativas do mundo cristão oriental e, contudo, seu nome aparece com certa solenidade na lista dos grandes defensores das imagens sagradas, redigida no II Concílio de Niceia, VII ecumênico (787). A Igreja grega celebra sua festa na liturgia de 12 de maio. Ele teve um papel significativo na complexa história da luta pelas imagens, durante a chamada crise iconoclasta: soube resistir validamente às pressões de um imperador iconoclasta, ou seja, adversário dos ícones, Leão III.
Durante o patriarcado de Germano (715-730), a capital do império bizantino – Constantinopla – sofreu um perigosíssimo assédio por parte dos sarracenos. Naquela ocasião (717-718), organizou-se uma solene procissão na cidade com a exposição da imagem da Mãe de Deus, a Theotokos, e da relíquia da Santa Cruz, para invocar do Alto a defesa da cidade. De fato, Constantinopla foi libertada do assédio. Os adversários decidiram desistir para sempre da ideia de estabelecer sua capital na cidade-símbolo do império cristão e o reconhecimento pela ajuda divina foi extremamente grande no povo. Leia o resto deste post »
por Joseph Ratzinger
Um jovem sacerdote disse-me recentemente: “Hoje precisamos de um novo movimento litúrgico”. Era a expressão de um desejo que, nos nossos dias, só espíritos voluntariamente superficiais poderiam descartar. Para aquele sacerdote, o importante não era a conquista de liberdades novas e audaciosas: nós já não tomamos todas essas liberdades? Ele entendeu que nós precisamos de um novo começo, que nasça no íntimo da liturgia, como queria o movimento litúrgico quando estava no apogeu de sua verdadeira natureza e não se preocupava em fabricar textos, inventar gestos e formas, mas em redescobrir o centro vivo, penetrar no tecido propriamente dito da liturgia, para que a sua realização nascesse da substância da liturgia. A reforma litúrgica, na sua realização concreta, afastou-se dessa origem. O resultado não foi uma reanimação mas uma devastação. De um lado, temos uma liturgia que se degenerou em show, com a tentativa de fazer com que a religião seja interessante com a ajuda de tolices da moda e de máximas morais sedutoras, que fazem sucesso momentâneo no grupo de fabricantes litúrgicos, e leva a uma atitude de fechamento ainda mais pronunciada entre aqueles que procuram na liturgia não um show-master espiritual mas o encontro com o Deus vivo diante do qual o “fazer” se torna insignificante, porque só esse encontro é capaz de nos possibilitar o acesso às verdadeiras riquezas do ser.
Do outro lado, há a conservação das formas rituais cuja grandeza comove ainda hoje, mas que, levado ao extremo, manifesta um isolamento obstinado e no fim só produz tristeza. Certamente, existem entre esses extremos sacerdotes e paroquianos que celebram a nova liturgia com respeito e solenidade, mas eles são contestados pela contradição entre os dois extremos, e a falta de unidade interna na Igreja faz com que a sua fidelidade pareça, erradamente em muitos casos, como uma simples variação pessoal do neoconservadorismo. Em vista dessa situação, é necessário um novo impulso espiritual para que a liturgia seja novamente para nós uma atividade comunitária da Igreja e para que ela seja arrancada da arbitrariedade dos párocos e das suas equipes de liturgia.
Não podemos “fabricar” um movimento litúrgico desse tipo – como não podemos “fabricar” nada vivo – mas podemos contribuir para o seu desenvolvimento, esforçando-nos para assimilar novamente o espírito da liturgia e defendendo publicamente o que recebemos. Esse novo início precisa de “pais” que sejam modelos e não se contentem em indicar o caminho a seguir. Quem hoje procura esses “pais” encontrará sem dúvida a pessoa de monsenhor Klaus Gamber, que infelizmente nos deixou cedo demais, mas que pode ser, justamente pela sua partida, realmente presente com toda a força das perspectivas que nos abriu. Partindo, ele evita a querela dos partidos e pode, nesta hora de dificuldade, ser o “pai” em um novo começo. Gamber atuou de coração a esperança do antigo movimento litúrgico. Sem dúvida, visto que provinha de uma escola estrangeira, sempre foi um outsider no cenário alemão, onde não quisemos admiti-lo. Recentemente, um jovem pesquisador teve dificuldades na sua tese porque ousou citar Gamber abundantemente e com muita benevolência. Mas pode ser que esse ostracismo seja providencial, porque forçou Gamber a seguir o seu caminho e evitou o peso do conformismo.
È difícil dizer em poucas palavras aquilo que, na querela dos liturgistas, é realmente essencial e o que não é. Pode ser a indicação seguinte seja útil. J. A. Jungmann, um dos grandes liturgistas do nosso século, definiu a liturgia como a entendemos no Ocidente, sobretudo através das pesquisas históricas, como uma “liturgia fruto de um desenvolvimento”, provavelmente para contrastar a noção oriental que não vê na liturgia um devir e um crescimento histórico mas só o reflexo da liturgia eterna, na qual a luz, através da função sacra, ilumina o nosso tempo e o reveste com a sua beleza e grandeza imutáveis. As duas concepções são legítimas e não inconciliáveis. O que aconteceu depois do Concílio foi muito diferente: em lugar de uma liturgia fruto de um desenvolvimento contínuo, surgiu uma liturgia fabricada. Saímos do processo vivo de crescimento e de devir para entrar na fabricação. Não quisemos prosseguir o devir e o amadurecimento orgânico do que vive através dos séculos, e o substituímos – como na produção técnica – por uma fabricação, um produto banal do instante. Gamber, com a vigilância de um autêntico profeta e a coragem de um testemunha, opôs-se a essa falsificação e nos ensinou incansavelmente a plenitude viva de uma liturgia verdadeira, graças ao seu grande conhecimento. Como homem que conhecia e amava a história, ele nos mostrou as múltiplas formas do devir e do caminho da liturgia; como homem que via a história por dentro, ele viu nesse desenvolvimento o reflexo intocável da liturgia eterna, que não é objeto da nossa ação mas pode continuar maravilhosamente a amadurecer e a afirmar-se se nós nos unimos intimamente ao seu mistério. A morte desse homem e sacerdote eminente deve nos estimular; a sua obra pode nos ajudar a tomar novo impulso.
(Prefácio do livro La réforme liturgique em question, de Klaus Gamber, Editions Sainte-Madeleine)
Por Vittorio Messori
Tradução: pensaBEM.net
Fonte: Corriere della Sera, 9 de Julho de 2003
Devo corrigir um erro que cometi. Aconteceu que num momento de mau humor, desejei – precisamente num meu artigo – que a Igreja se decidisse a fazer uma alteração no calendário: que transferisse para o dia 15 de Agosto aquilo que celebra no dia 25 de Dezembro. Um Natal no deserto estivo – argumentava eu – libertar-nos-ia das insuportáveis iluminações, dos enjoativos trenós com renas e Pais Natais, e até da obrigação de mandar cartões de Boas Festas e prendas. De facto, quando todos estão fora, quando as cidades estão vazias, a quem – e para onde – mandar cartões de Boas Festas e embrulhos enfeitados de fitas e laçarotes? Não são os próprios Bispos que trovejam contra aquela espécie de orgia consumista a que se reduziram as nossas Festas de Natal? Então, “fintemos” os comerciantes: passemos tudo para o dia 15 de Agosto. A coisa – observava eu – não parece ser impossível: de facto, não foi a necessidade histórica, mas sim a Igreja a escolher o dia 25 de Dezembro para contrastar e substituir as festas pagãs nos dias do solstício de Inverno: colocar o nascimento do Cristo em lugar do renascimento do Sol Invictus. No início houve, portanto, uma decisão pastoral, mas esta pode ser mudada, consoante as necessidades.
Era uma provocação, obviamente, mas que se baseava naquilo que é (ou, melhor, que era) pacificamente aceite por todos os estudiosos: a colocação litúrgica do Natal é uma escolha arbitrária, sem ligação com a data do nascimento de Jesus, a qual ninguém estaria em condições de poder determinar. Ora bem, parece que os especialistas se enganaram mesmo; e eu, obviamente, com eles. Na realidade, hoje – graças também aos documentos de Qumran* – estamos em condições de poder estabelecê-lo com precisão: Jesus nasceu mesmo num dia 25 de Dezembro. Uma descoberta extraordinária a sério e que não pode ser alvo de suspeitas de fins apologéticos cristãos, dado que a devemos a um docente judeu, da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Procuremos compreender o mecanismo, que é complexo, mas fascinante. Se Jesus nasceu a 25 de Dezembro, a sua concepção virginal ocorreu, obviamente 9 meses antes. E, com efeito, os calendários cristãos colocam no dia 25 de Março a Anunciação do Anjo S. Gabriel a Maria. Mas sabemos pelo próprio Evangelho de S. Lucas que, precisamente seis meses antes, tinha sido concebido por Isabel, João, o precursor, que será chamado o Baptista. A Igreja Católica não tem uma festa litúrgica para esta concepção, mas a Igreja do Oriente celebra-a solenemente entre os dias 23 e 25 de Setembro; ou seja, seis meses antes da Anunciação a Maria. Uma lógica sucessão de datas, mas baseada em tradições não verificáveis, não em acontecimentos localizáveis no tempo. Assim acreditávamos todos nós, até há pouquíssimo tempo. Mas, na realidade, parece mesmo que não é assim.
De facto, é precisamente da concepção do Baptista que devemos partir. O Evangelho de S. Lucas abre-se com a história do velho casal, Zacarias e Isabel, já resignado à esterilidade – considerada uma das piores desgraças em Israel. Zacarias pertencia à casta sacerdotal e, um dia, em que estava de serviço no Templo de Jerusalém, teve a visão de Gabriel (o mesmo anjo que aparecerá seis meses mais tarde a Maria, em Nazaré), o qual lhe anunciou que, não obstante a idade avançada, ele e a mulher iriam ter um filho. Deviam dar-lhe o nome de João e ele seria grande «diante do Senhor».
Lucas teve o cuidado de precisar que Zacarias pertencia à classe sacerdotal de Abias e que quando teve a aparição «desempenhava as funções sacerdotais no turno da sua classe». Com efeito, no antigo Israel, os que pertenciam à casta sacerdotal estavam divididos em 24 classes, as quais, alternando-se segundo uma ordem fixa e imutável, deviam prestar o serviço litúrgico no Templo, por uma semana, duas vezes por ano. Já se sabia que a classe de Zacarias – a classe de Abias – era a oitava no elenco oficial. Mas quando é que ocorriam os seus turnos de serviço? Ninguém o sabia. Ora bem, o enigma foi desvendado pelo professor Shemarjahu Talmon, docente na Universidade Hebraica de Jerusalém, utilizando investigações desenvolvidas também por outros especialistas e trabalhando, sobretudo, com textos encontrados na Biblioteca essena de Qumran. O estudioso conseguiu precisar em que ordem cronológica se sucediam as 24 classes sacerdotais. A de Abias prestava serviço litúrgico no Templo duas vezes por ano, tal como as outras, e uma das vezes era na última semana de Setembro. Portanto, era verosímil a tradição dos cristãos orientais que coloca entre os dias 23 e 25 de Setembro o anúncio a Zacarias. Mas esta verosimilhança aproximou-se da certeza porque os estudiosos, estimulados pela descoberta do Professor Talmon, reconstruíram a “fileira” daquela tradição, chegando à conclusão que esta provinha directamente da Igreja primitiva, judaico-cristã, de Jerusalém. Esta memória das Igrejas do Oriente é tão firme quanto antiga, tal como se confirma em muitos outros casos.
Eis, portanto, como aquilo que parecia mítico assume, improvisamente, uma nova verosimilhança – Uma cadeia de acontecimentos que se estende ao longo de 15 meses: em Setembro o anúncio a Zacarias e no dia seguinte a concepção de João; seis meses depois, em Março, o anúncio a Maria; três meses depois, em Junho, o nascimento de João; seis meses depois, o nascimento de Jesus. Com este último acontecimento, chegamos precisamente ao dia 25 de Dezembro; dia que não foi, portanto, fixado ao acaso.
Sim, parece que festejar o Natal no dia 15 de Agosto é coisa não se pode mesmo propor. Corrijo, portanto, o meu erro, mas, mais que humilhado, sinto-me emocionado: depois de tantos séculos de investigação encarniçada, os Evangelhos não deixam realmente de nos reservar surpresas. Parecem detalhes aparentemente inúteis (o que é que importava se Zacarias pertencia à classe sacerdotal de Abias ou não? Nenhum exegeta prestava atenção a isto) mas que mostram, de improviso, a sua razão de ser, o seu carácter de sinais duma verdade escondida mas precisa. Não obstante tudo, a aventura cristã continua.
Nota:
* Os manuscritos de Qumran foram descobertos em 1947, perto das margens do Mar Morto, na localidade de Qumran, localidade onde a seita hebraica dos Essénios tinha nos tempos de Jesus a sua sede principal. Os manuscritos foram encontrados em ânforas, provavelmente escondidos pelos monges da seita, quando tiveram de fugir dos romanos provavelmente entre 66 e 70 d. C. Aqueles pergaminhos deram-nos os textos de quase todos os livros da Bíblia copiados de dois a um século antes de Jesus e perfeitamente coincidentes com os que são usados hoje pelos hebreus e pelos cristãos(cfr. Hipóteses sobre Jesus, Porto, Edições Salesianas, 1987, p. 101)
Queridos irmãos e irmãs:
Neste domingo, que coincide com o início de junho, eu gostaria de recordar que este mês está tradicionalmente dedicado ao Coração de Cristo, símbolo da fé cristã, particularmente amado, tanto pelo povo como pelos místicos e pelos teólogos, pois expressa de uma maneira simples e autêntica a “boa notícia” d o amor, resumindo em si o mistério da encarnação e da Redenção. E na sexta-feira passada celebramos a solenidade do Sagrado Coração de Jesus, terceira e última das festas que seguiram o Tempo Pascal, após a Santíssima Trindade e o Corpus Christi.
Esta sucessão faz pensar em um movimento que se dirige ao centro: um movimento do espírito guiado pelo próprio Deus. Desde o horizonte infinito do seu amor, de fato, Deus quis entrar nos limites da história e da condição humana, tomou um corpo e um coração, para que possamos contemplar e encontrar o infinito no finito, o Mistério invisível e inefável no Coração humano de Jesus, o Nazareno.
Em minha primeira encíclica sobre o tema do amor, o ponto de partida foi precisamente o olhar dirigido ao lado transpassado de Cristo, do qual João fala no seu evangelho ( cf. 19, 37; Deus caritas est, 12). E este centro da fé é também a fonte da esperança pela qual fomos salvos, esperança que foi o tema da minha segunda encíclica.
Toda pessoa precisa de um «centro» para sua própria vida, um manancial de verdade e de bondade ao qual recorrer frente à sucessão das diferentes situações e no cansaço da vida cotidiana. Cada um de nós, quando faz uma pausa em silêncio, precisa sentir não somente o palpitar do coração, mas, de maneira mais profunda, o palpitar de uma presença confiável, que pode ser percebida com os sentidos da fé e que, no entanto, é muito mais real: a presença de Cristo, coração do mundo. Eu vos convi do, portanto, a renovar no mês de junho sua própria devoção ao Coração de Cristo, valorizando também a tradicional oração de oferecimento do dia e tendo presentes as intenções que proponho a toda a Igreja.
Junto ao Sagrado Coração de Jesus, a liturgia nos convida a venerar o Coração Imaculado de Maria. Confiemo-nos sempre a ela com grande confiança. Eu gostaria de invocar a intercessão materna de Nossa Senhora mais uma vez pelas populações da China e de Mianmar, atingidas por calamidades naturais, e por aqueles que passam pelas numerosas situações de dor, doença e miséria material e espiritual que marcam o caminho da humanidade.
[Tradução: Aline Banchieri. Revisão: José Caetano.
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