Depósito da Fé: a Tradição Escrita e a Tradição Oral


Fonte: A Fé Cristã: Coletânea de Sentenças Patrísticas. Volume 2: Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

Sabe-se, inquestionavelmente, que Jesus passou todo o seu ministério público ensinando as coisas de Deus Pai por viva voz, mediante a pregação oral, com exceção de uma única vez, quando escreveu, com o dedo, na terra (cf. Jo. 8,6); infelizmente, nessa oportunidade única, nenhum dos evangelistas documentou o que ele teria escrito no chão.

Igualmente, constata-se na Bíblia que Jesus jamais ordenou aos seus discípulos para que colocassem por escrito os seus ensinamentos, mas os convocou para que, assim como ele, pregassem o Evangelho a toda criatura (cf. Mc. 16,15), afirmando, ainda, que aqueles que ouvissem seus discípulos estariam ouvindo a Ele mesmo (cf. Lc. 10,16). Por isso, os primeiros escritos do Novo Testamento – as epístolas de São Paulo – começaram a surgir 20 anos após a ressurreição do Senhor (os primeiros evangelhos, no entanto, somente passaram a aparecer depois de 40 anos!). Percebe-se, assim, que os discípulos de Jesus obedeceram fielmente a sua ordem, primeiramente pregando e formando as primeiras comunidades, para só depois escrever e, mesmo assim, apenas quando necessário.

Com efeito, o próprio São Paulo deduz a existência de duas formas de Tradição: a oral (formada pela pregação de viva voz) e a escrita (composta pelo Antigo Testamento e os novos documentos cristãos produzidos segundo a necessidade), como lemos em 2Tes. 2,15. Em momento algum a Tradição escrita, consignada na Bíblia, rejeita a Tradição oral (cf. 2Tim. 1,13, 2Tes. 3,6), até porque reconhece-se explicitamente que nem todos os ensinamentos e feitos de Jesus poderiam caber dentro dos limites de qualquer livro (cf. Jo. 20,30; 21,25) e que somente a Igreja é “a coluna e o fundamento da Verdade” (1Tim. 3,15), já que ela obviamente detém, por Pedro, as chaves do Reino (cf. Mt. 16,19), podendo ligar e desligar as coisas no céu (Mt. 18,18), bem como conta com a assistência do Espírito Santo (cf. At. 2,4).

Daí a autoridade da Igreja para proclamar o Reino de Deus (v.tb. Mt. 18,17) e, inclusive, para estabelecer o verdadeiro cânon bíblico. Com efeito, quem estabeleceu o cânon do Antigo (com 46 livros) e do Novo Testamento (com 27 livros) para os cristãos foi a Igreja, no séc. IV, baseando-se na Tradição Oral dos primeiros cristãos. Por isso, quem nega o valor da Tradição Oral não pode nem acatar os livros da Bíblia, vez que esta, por si só, não relaciona os livros que devem ser aceitos como legítimos.

Por outro lado, boa parte daquilo que recebemos pela Tradição oral foi coletada e citada por muitos cristãos primitivos, cuja fé cristã autêntica não lhes pode ser negada ou reduzida, em seus respectivos escritos, que demonstram posições não contrárias à Bíblia ou complementares a esta. A autoridade de cada escritor, porém, está firmada sobre a sua erudição, santidade e ordem hierárquica.

Daí ser inegável a importância do período Patrístico para a Igreja cristã, pois foi durante os primeiros séculos da Era Cristã que não apenas a Igreja como a própria doutrina cristã se “desenvolveram”, ou seja, foram mais bem explicadas, compreendidas e aceitas por toda a Cristandade.

NABETO, Carlos Martins. 1969- A Fé Cristã: Coletânea de Sentenças Patrísticas. Volume 2: Deus Pai, Filho e Espírito Santo. São Vicente: 2007.

 

 

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