A Missa degenerada em show, por Bento XVI


por Joseph Ratzinger

O ex prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé fala sobre a reforma litúrgica

Um jovem sacerdote disse-me recentemente: “Hoje precisamos de um novo movimento litúrgico”. Era a expressão de um desejo que, nos nossos dias, só espíritos voluntariamente superficiais poderiam descartar. Para aquele sacerdote, o importante não era a conquista de liberdades novas e audaciosas: nós já não tomamos todas essas liberdades? Ele entendeu que nós precisamos de um novo começo, que nasça no íntimo da liturgia, como queria o movimento litúrgico quando estava no apogeu de sua verdadeira natureza e não se preocupava em fabricar textos, inventar gestos e formas, mas em redescobrir o centro vivo, penetrar no tecido propriamente dito da liturgia, para que a sua realização nascesse da substância da liturgia. A reforma litúrgica, na sua realização concreta, afastou-se dessa origem. O resultado não foi uma reanimação mas uma devastação. De um lado, temos uma liturgia que se degenerou em show, com a tentativa de fazer com que a religião seja interessante com a ajuda de tolices da moda e de máximas morais sedutoras, que fazem sucesso momentâneo no grupo de fabricantes litúrgicos, e leva a uma atitude de fechamento ainda mais pronunciada entre aqueles que procuram na liturgia não um show-master espiritual mas o encontro com o Deus vivo diante do qual o “fazer” se torna insignificante, porque só esse encontro é capaz de nos possibilitar o acesso às verdadeiras riquezas do ser.

Do outro lado, há a conservação das formas rituais cuja grandeza comove ainda hoje, mas que, levado ao extremo, manifesta um isolamento obstinado e no fim só produz tristeza. Certamente, existem entre esses extremos sacerdotes e paroquianos que celebram a nova liturgia com respeito e solenidade, mas eles são contestados pela contradição entre os dois extremos, e a falta de unidade interna na Igreja faz com que a sua fidelidade pareça, erradamente em muitos casos, como uma simples variação pessoal do neoconservadorismo. Em vista dessa situação, é necessário um novo impulso espiritual para que a liturgia seja novamente para nós uma atividade comunitária da Igreja e para que ela seja arrancada da arbitrariedade dos párocos e das suas equipes de liturgia.

Não podemos “fabricar” um movimento litúrgico desse tipo – como não podemos “fabricar” nada vivo – mas podemos contribuir para o seu desenvolvimento, esforçando-nos para assimilar novamente o espírito da liturgia e defendendo publicamente o que recebemos. Esse novo início precisa de “pais” que sejam modelos e não se contentem em indicar o caminho a seguir. Quem hoje procura esses “pais” encontrará sem dúvida a pessoa de monsenhor Klaus Gamber, que infelizmente nos deixou cedo demais, mas que pode ser, justamente pela sua partida, realmente presente com toda a força das perspectivas que nos abriu. Partindo, ele evita a querela dos partidos e pode, nesta hora de dificuldade, ser o “pai” em um novo começo. Gamber atuou de coração a esperança do antigo movimento litúrgico. Sem dúvida, visto que provinha de uma escola estrangeira, sempre foi um outsider no cenário alemão, onde não quisemos admiti-lo. Recentemente, um jovem pesquisador teve dificuldades na sua tese porque ousou citar Gamber abundantemente e com muita benevolência. Mas pode ser que esse ostracismo seja providencial, porque forçou Gamber a seguir o seu caminho e evitou o peso do conformismo.

È difícil dizer em poucas palavras aquilo que, na querela dos liturgistas, é realmente essencial e o que não é. Pode ser a indicação seguinte seja útil. J. A. Jungmann, um dos grandes liturgistas do nosso século, definiu a liturgia como a entendemos no Ocidente, sobretudo através das pesquisas históricas, como uma “liturgia fruto de um desenvolvimento”, provavelmente para contrastar a noção oriental que não vê na liturgia um devir e um crescimento histórico mas só o reflexo da liturgia eterna, na qual a luz, através da função sacra, ilumina o nosso tempo e o reveste com a sua beleza e grandeza imutáveis. As duas concepções são legítimas e não inconciliáveis. O que aconteceu depois do Concílio foi muito diferente: em lugar de uma liturgia fruto de um desenvolvimento contínuo, surgiu uma liturgia fabricada. Saímos do processo vivo de crescimento e de devir para entrar na fabricação. Não quisemos prosseguir o devir e o amadurecimento orgânico do que vive através dos séculos, e o substituímos – como na produção técnica – por uma fabricação, um produto banal do instante. Gamber, com a vigilância de um autêntico profeta e a coragem de um testemunha, opôs-se a essa falsificação e nos ensinou incansavelmente a plenitude viva de uma liturgia verdadeira, graças ao seu grande conhecimento. Como homem que conhecia e amava a história, ele nos mostrou as múltiplas formas do devir e do caminho da liturgia; como homem que via a história por dentro, ele viu nesse desenvolvimento o reflexo intocável da liturgia eterna, que não é objeto da nossa ação mas pode continuar maravilhosamente a amadurecer e a afirmar-se se nós nos unimos intimamente ao seu mistério. A morte desse homem e sacerdote eminente deve nos estimular; a sua obra pode nos ajudar a tomar novo impulso.

(Prefácio do livro La réforme liturgique em question, de Klaus Gamber, Editions Sainte-Madeleine)

 

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2 Respostas to “A Missa degenerada em show, por Bento XVI”

  1. Martinluter Says:

    É muito interessante observar que a mesma problematica que tem atingindo as igrejas protestantes, tambem tem atingindo a igreja catolica. Isso so nos mostra que certas reformas nem sempre tras beneficios, como dizem aqueles que a aceitão cegamente.
    Eu como um protestante que sou oriundo da igreja Batista, fico muito triste em observar como esses movimentos criados para atrair pessoas nos tem distanciado da palavra de Cristo que diz “Nem por força ou violencia, mas pelo meu espirito…” pois é ele o Espirito Santo quem nos convence da justiça, do pecado e do juizo…
    deixemos que o Espirito fça a sua obra atrves de nos sem esses artificios humanos.

    a paz parr todos!!

    Olhar Católico

    Prezado Vinnycius, a paz de Jesus e o amor de Maria, Mãe do meu Senhor (Lc1, 43).

    Obrigado pelo seu comentário. Realmente, a infiltração do protestantismo tem sido avassaladora nos ritos católicos, principalmente na Missa, que vão desde a cantos nada sacros até a comunhão na mão.

    Rezemos para que a Mãe da Eucaristia, Sempre Virgem Maria, rogue por nós a Seu Filho, para que Ele perdoe os agravos ao Seu Santo Corpo.

    Que Deus nos abençoe e Maria nos guarde!

  2. Flávio Says:

    A SOLENE CELEBRAÇÃO DA SANTA MISSA DE SÃO PIO E MAUS EXEMPLOS DE OUTROS LOCAIS

    O mundanismo e a ditadura do relativismo infiltraram-se na Igreja sob vários disfarces, provenientes de interpretações proposital-fraudulentas do Vaticano II: sincretismos religiosos, conotações protestantes, inclusive de música apropriadas aos seus cultos, tentativa de nivelar o povo a Deus e muitas adaptações e interpretações pessoais secular-sectarizantes.

    É bom frisar que a Igreja possui sérias infiltrações da Internacional Socialista há décadas e outras sociedades secretas; um dos subfrutos oriundos atuantes e nocivos é a Teologia(Heresia) da Libertação/Marxismo Cultural – TL/MC – que de teologia nada possui por imanentizar todo seu conteúdo transcendente, por meio de alguns membros ordenados apostasiados, ex freis Boff, Betto, etc., socializando e banalizando a doutrina e a liturgia, e ainda implantando o materialismo-ateísmo na sociedade; e mais um desses é a dessacralização do Mistério Eucarístico na Santa Missa, transformando-o apenas em ceia fraterna comum – ações da TL/MC – deixando de lado o respeito, devoção e recolhimentos, tão necessários à sacralidade e sacrificialidade do Memorial da Paixão e Morte incruento de Jesus na cruz.

    Ao acaso a SS Virgem Maria junto à cruz batia palmas, alegrava-se àquele momento, em tão dolorosíssima situação?

    Há, por sinal, muitos católicos de comportamentos superficiais, desvirtuados e alienados à fé, adeptos das seguintes idéias: gosto de ir a uma Missa animada…Cheia de situações atraentes… Um cantor e orquestra lindos… Que “Missa boa” do padre fulano, choro de emoção, isso é que é Missa! A do outro padre, nem me falem, monótona demais, cansativa…Parece que a fé(?) de alguns para existir e funcionar, tem de haver estímulos exteriores…

    Vejam abaixo o atual e oportuníssimo comentário do S. Padre Bento XVI da Carta Apostólica do S. Padre e Beato João Paulo II – Domenica Coena – datado de 24/02/1980.

    “A liturgia não é um show, um espetáculo que necessite de diretores geniais e de atores de talento. A liturgia não vive de

    surpresas simpáticas, de invenções cativantes, mas de repetições solenes. Não deve exprimir a atualidade e o seu efêmero, mas o mistério do Sagrado. Muitos pensaram e disseram que a liturgia deve ser feita por toda comunidade para ser realmente sua. É um modo de ver que levou a avaliar o seu sucesso em termos de eficácia espetacular, de entretenimento. Desse modo, porém , terminou por dispersar o propium litúrgico que não deriva daquilo que nós fazemos, mas, do fato que acontece. Algo que nós todos juntos não podemos, de modo algum, fazer. Na liturgia age uma força, um poder que nem mesmo a Igreja inteira pode atribuir-se: o que nela se manifesta é o absolutamente Outro que, através da comunidade chega até nós. Isto é, surgiu a impressão de que só haveria uma participação ativa onde houvesse uma atividade externa verificável: discursos, palavras, cantos, homilias, leituras, apertos de mão… Mas ficou no esquecimento que o Concílio inclui na actuosa participatio também o silêncio, que permite uma participação realmente profunda, pessoal, possibilitando a escuta interior da Palavra do Senhor. Ora desse silêncio, em certos ritos, não sobrou nenhum vestígio.


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