Montfort – O rock pode ser usado para evangelização?


PERGUNTA

Nome:
Phillipe Nogueira Tolentino

Enviada em:
25/10/2010

Local:
Diamantina – MG, Brasil

Religião:
Católica

Escolaridade:
Superior em andamento

Profissão:
Estudante


Aos admirados irmãos do Montfort Paz e Bem!
Por acaso estava lendo alguns artigos e cartas no site até que me deparei com cartas cujo assunto abordado é o rock.
Foi difícil tomar coragem para escrever já que o nível intelectual dos participantes é alto.
Bom, sou fã de vários (não todos) estilos de músicas, por exemplo o rock que conhecia apenas aqueles cujas letras são deploráveis. Como suas letras não me agradavam (já que a letra é um dos critérios que faço para a seleção de músicas), então deixei de lado por um bom tempo sem deixar de gostar do estilo.
Até que certo dia (e isso faz pouco tempo) conheço a banda Rosa de Saron e mais tarde um seminarista me passa músicas das bandas Ceremonya, The Flanders e Eterna. Nelas pude encontrar letras musicas que um bom cristão pode escutar e que se encaixa com o rock.
Quero chegar na seguinte situação:
creio que Deus criou tudo e tudo foi bom, como nos diz as Escrituras. Os sons também se incluem nessa classificação.
Infelizmente alguns usam coisas da criação para o mal, mas tudo o que Ele criou é bom.
O som do rock também foi criado indiretamente por Deus, mas escolheram, primeiramente, como símbolo do satanismo mesmo que ele não seja, em essência, como tal.
Um exemplo parecido é o dia do Natal que primeiramente era usado pelos pagãos como o dia para honrar seu deus, o deus Sol. Mas que a Igreja usou-a para celebrar o dia do nascimento de Jesus, o nosso Sol, a nossa Luz, o nosso Tudo. Assim também com o mês de maio que a Igreja coloca como mês mariano que antes disso era usado pelos pagãos para exaltar a sua deusa, a deusa Flora (se essa informação não estiver errada). E assim vai com o violão e com muitos outros exemplos.
Por isso, concluo o meu pensamento dizendo que nesta colocação que fizeram quanto ao rock não fui inicialmente favorável, que acredito que o rock pode sim ser usado na evangelização, mesmo que, por muitos, ele seja usado por uma causa totalmente contrária.
Gostaria que me ajudassem nessa reflexão e que me dessem suas opiniões.
Obrigado! Que Deus abençoe a todos do Montfort pela intercessão da Virgem Maria.

RESPOSTA

Prezado Phillipe,

Salve Maria!

     O rock (assim como toda música dita pop, sertanojo, samba, forró e etc.) não pode ser usado para evangelização, pois os princípios que constituem a organização musical desses estilos são anti-metafísicos, portanto vão contra a realidade, contra Deus.

     Para uma obra musical (assim como toda obra de arte) ser bela, ela deve estar submissa às Leis que Deus colocou na realidade. Cada criatura tem uma ordem intrínseca que reflete a Deus, e entre todas as criaturas há uma ordem que O reflete de maneira mais perfeita ainda.

     Essa ordem segue certos princípios metafísicos como o princípio de identidade, princípio de não-contradição, relação de causa e efeito, analogia do ser. Todos esses princípios são ontológicos, i.e., dizem respeito a todos os seres. São objetivos e imutáveis. São da própria realidade. Portanto não dependem de fatores históricos, sociais nem culturais, muito menos do “gosto” ou opinião de cada um.

A estética medieval é justamente a que seguiu esses princípios imutáveis. Logo, ela não é válida apenas para a Idade Média.

Segundo a Estética Medieval, a “Música, baseada nas relações proporcionais que envolvem o número, é um símbolo audível de uma ordem ontológica dada por Deus”:

“(…) Music, based on proportional relationships which embody Number, is an audible symbol of a God-given ontological order.”(Proportions in Ancient and Medieval Music, Manuel Pedro Ferreira in “Mathematics and music: Diderot Forum”, Lisbon-Paris-Vienna / Jose Francisco Rodrigues, Hans Georg Feichtinger, Gerard Assayag (editors))

     Como vemos, a música é um símbolo audível da ordem ontológica estabelecida por Deus.

     Símbolo é o inteligível no sensível. É um objeto sensível que contém em si (de modo sintético) uma idéia, um raciocínio, de maneira clara e inteligível.

Assim, as criaturas são símbolos de Deus. O ser delas é de acordo com uma idéia, com um princípio intelectual que Deus colocou para nos ensinar algo sobre Si mesmo.

Toda ordem reflete a Sabedoria ordenadora.

     A ordem do universo reflete a Deus.

     Logo, uma obra de arte que está submissa a essa ordem, indiretamente reflete a Deus.

     Por isso Dante (autor a quem devemos ter muitas ressalvas) bem disse que as obras de arte são como “netas de Deus”.

     O que define uma obra musical não é a existência de sons, mas sim a ordem que há entre eles. Os sons são, de fato, criados por Deus e por isso são bons. Porém, a ordenação de uma obra musical bem como a escolha de sons dignos para ela cabe ao compositor, que é um ser humano e está sujeito ao pecado original.[1]

Se o compositor faz uma obra musical ordenando-a segundo princípios metafísicos, aí sim essa obra pode ser dita “indiretamente” criada por Deus, pois os princípios dessa ordem que a constitui não foram criados pelo compositor.

Nem o rock nem os estilos de música acima mencionados seguem esses princípios. Pelo contrário, há nessas músicas uma verdadeira repulsa a esses princípios. E não importa se há bandas de rock que tentam colocar uma letra “católica” (duvido muito que o sejam) em suas obras, pois a música continua sendo péssima. É até pior, pois engana os católicos mais ingênuos que não tem coragem de parar de ouvir todo o tipo de rock.

     Vejamos quais são esses princípios e como eles devem ser encontrados numa obra musical:

1. Analogia do ser.

     Deus ordenou suas criaturas segundo o princípio de analogia do ser.

     As criaturas são análogas, i.e., semelhantes, tem algo de diferente, algo de igual.

     Logo, as diversas melodias que compõe uma obra musical devem ser semelhantes, i.e., contrastar logicamente.

     As melodias do rock não são ordenadas segundo esse princípio. Aliás, a própria estruturação interna de cada melodia já é desordenada, na maior parte das vezes sendo apenas repetição de fragmentos sem unidade entre si.

2. Relação de causa e efeito.

     A música se dá no tempo.

     Logo, para a música ser Boa, Bela e Verdadeira, ela deve seguir a ordem de como as coisas se dão no tempo. Essa ordem implica numa relação de causa e efeito. Portanto, as melodias que se sucedem numa obra musical devem implicar numa relação de causa e efeito. Deve haver uma melodia principal, original, da qual são derivadas e a qual se refere todas as outras melodias. Essa melodia deve ser causa das outras melodias.

     A primeira melodia de uma obra musical deve ser sempre mais importante do que as outras.

Esse tipo de ordenação implica em que ao escutar uma obra musical, fiquemos atentos a essas relações entre o começo, o meio e o final da obra. Uma relação entre passado, presente e futuro.

     Ora, são os selvagens que, sendo homens decadentes (que, quando recebem a devida instrução deixam de ser decadentes), não têm noção de história, de tempo. O selvagem vive para o instante.[2]

Essa relação de causa e efeito não há no rock. Pois é constituído basicamente de fragmentos de melodias ou proto-melodias repetidos ad nauseam ou variados sem lógica, sem relação de causa e efeito.

3. Princípio de identidade e de não-contradição:

     Se alguma melodia for repetida no decorrer da peça, ela deve ser repetida de maneira clara, i.e., não deformada, para que seja identificada enquanto tal.

     Do mesmo modo, as melodias que são derivadas de uma primeira devem ter elementos que claramente se referem a ela.

     A relação entre a melodia original e a melodia derivada deve ser clara, e não oculta.

     Esse princípio é extremamente negado em peças de compositores Românticos como Beethoven e Richard Wagner. Pois esses compositores eram gnósticos, e é a Gnose que nega o princípio de identidade e de não-contradição.

     Não é a toa que as sonatas românticas justamente por esse fato são chamadas de “sonatas dialéticas”. Poderiam ser bem chamadas de “sonatas gnósticas”.

4. Tudo o que é inferior está ordenado ao que é superior. Hierarquia ontológica entre os elementos musicais.

A ordenação entre as notas musicais deve subjugar a ordenação do ritmo.

     Pois o ritmo é inferior às notas musicais.

Uma música na qual há apenas instrumentos de percussão, sem melodia, é claramente inferior a uma música com melodia.

A ordem que pode haver entre elementos rítmicos é evidentemente inferior à ordem que pode haver entre notas musicais.

     Os selvagens, homens decadentes, fazem música apenas rítmica. E ainda que haja tribos selvagens que juntam ao ritmo algumas notas musicais, essas são usadas de maneira pobre e fragmentada (e submissas ao ritmo)… Exatamente como no rock.

     Do mesmo modo, além do rock, toda música pop, sertanojo, samba, forró etc, coloca o ritmo acima da harmonia entre as notas musicais, pois são músicas selvagens.

     Vemos, portanto que o princípio estruturador dessas obras musicais é o ritmo e não as notas musicais.

     Nessas músicas a melodia e a harmonia obedecem ao ritmo e não o contrário como manda a Metafísica.

     Portanto, há uma verdadeira inversão da ordem da realidade nessas músicas, ou seja, uma desordem, um mal.

Conclusão:

     O rock é uma música selvagem feita com destroços de uma cultura que já foi elevada. É música selvagem ainda que feita com escalas musicais (pois essas não são usadas de modo ordenado, segundo os princípios metafísicos). O rock é uma caricatura selvagem e decadente de uma cultura musical elevada. É o reflexo da decadência da nossa sociedade que, pelas Três Revoluções, recusou a ser submissa ao Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo e a sua única Igreja.

A finalidade de uma obra musical, bem como a de toda obra de arte, é aumentar nossa adesão à realidade, aumentar nossa adesão à Verdade, a Deus, por meio da contemplação estética.

Contemplação que envolve nossas faculdades mais elevadas: sensibilidade, vontade e inteligência.

     Pela razão natural é possível conhecer a Deus pelo seu reflexo na obra da criação.

     Como vimos uma obra de arte, para ser Boa e Bela e Verdadeira, deve estar submissa às leis que Deus colocou na obra da criação, que são princípios metafísicos.

     Portanto do mesmo modo, uma obra musical Boa, Bela e Verdadeira reflete a Deus, o tornando mais cognoscível à razão.

     A boa música é um vitral de Deus.

     Desse modo, se temos uma obra musical como boa, i.e, se a amamos, estamos amando algo que é como uma “fotografia” de Deus.

     E quando guardamos uma fotografia de alguém querido, não gostamos da foto em si, mas da pessoa retratada na foto.

     Portanto, amando a boa música, amamos mais a Deus.[3]

     E assim, conhecendo e amando mais a Deus, temos uma disposição melhor para obedecê-lO e servi-lO.

     Deste modo, a obra de arte tem como finalidade última a maior Glória de Deus: torná-lO mais conhecido, amado e obedecido pelas suas criaturas racionais.

     A contemplação de uma Boa, Bela e Verdadeira obra de arte nos faz submeter a sensibilidade à Beleza, a vontade ao Bem, e a inteligência à Verdade.

     Se estimarmos uma obra de arte que não reflete a Deus, estimamos algo que O contradiz e repudia.

     Ora, a repulsa e a contradição a Deus é própria do demônio, do pecado.

     Portanto, as obras de arte más (e somente um imbecil de má fé veria maniqueísmo nessa denominação) dispõem o homem à desobediência a Deus.

     Quem ouve música má como pop, rock, samba, forró, sertanojo e etc. (e bota etc. nisso!) tem mais dificuldade (na verdade uma verdadeira repulsa) de praticar a Lei de Deus do que àqueles que não ouvem. E para provar isso basta olhar para os fatos.

     A desobediência a Deus é própria do diabo.

     Logo, a obra de arte má reflete o demônio, o pecado, e dispõe a alma a ele.

     A alma então estando indisposta a obedecer a Deus, a praticar o bem, fica disposta ao demônio e ao pecado. Portanto, facilita a ação do demônio sobre ela.

     Não é a toa que há muitos casos de possessão demoníaca envolvendo o rock.

     Como nada está destruído sem ter sido substituído, o combate à má música deve ser feito com a boa música.

     E não falo apenas de canto gregoriano.

     Compositores como Palestrina, Tomás de Luis de Victoria, Orlando di Lasso possuem a obra musical mais perfeita e submissa a Deus que já foi feita.

     Procure os discos do músico Jordi Savall. Apesar dele lastimavelmente ter lançado um CD fazendo uma apologia ao catarismo (heresia gnóstica medieval combatida pela Santa Inquisição), possui muitas gravações de belas obras medievais e dos séculos XV, XVI.

     Procure as gravações das canções do Llibre Vermell de Montserrat, Cantigas de Santa Maria e Ensaladas de Mateo Flecha.

     Entre as músicas populares genuínas, tradicionais, encontrará dentre as mais belas as dos cossacos.

     Tudo isso é facilmente encontrado na internet.

Há muitas outras indicações de músicas que poderia lhe fazer, mas não cabem aqui. É claro que há muitas músicas dignas de serem ouvidas além dessas que recomendei. E é claro também, que há muitos outros tipos de música péssimos que, para não me estender muito, não pude falar aqui (por exemplo: a Ars Nova, Maneirismo Renascentista, iluminismo/enciclopedismo, romantismo, impressionismo, expressionismo, modernismo, jazz). Aguarde novos artigos em breve.

     Espero ter-lhe ajudado, e que você finalmente compreenda que todo católico tem o dever de amar a Beleza e que essa é ontológica, objetiva e não um critério válido apenas para cada indivíduo, época, sociedade ou nação. Pois amar a Beleza é amar a Deus que é a Beleza Absoluta, fonte de toda a beleza criada. E amar a Deus sobre todas as coisas é o Primeiro Mandamento.

Salve Maria!

Doce Coração de Maria sede a nossa salvação. 

Fernando Schlithler


[1] Do mesmo modo, a pedra de mármore foi feita por Deus. Porém, se algum artista faz uma escultura imoral e perversa com mármore, nem por isso ela será Boa e Bela. O mal é uma desordem que o homem faz com os bens criados por Deus, não os usando segundo a finalidade para qual Deus os fez, não submetendo esses bens à Sua Lei.

[2] O selvagem, não tendo noção de tempo, não guarda a colheita para os tempos de escassez. Quando acaba a colheita do lugar em que habita, o selvagem simplesmente se muda e busca outro lugar. O selvagem não tem cultivo, portanto, não tem cultura.

O selvagem vive apenas para a satisfação do instante, do mínimo que é necessário para sobrevivência. Vive da maneira mais baixa, apenas buscando a satisfação do corpo.

A vida de um selvagem se assemelha muito a um lema moderno “carpe diem”: aproveitar o dia, viver sem culpas, sem dilemas morais. Vive-se inconseqüentemente.

Veja como o selvagem é muito parecido com o modo de ser da maioria das pessoas de hoje em dia.

[3] O contrário, portanto também é bem verdadeiro: quem não aprecia a Boa, Bela e Verdadeira obra de arte, mas a tem como feia (portanto má e falsa), é a Deus quem está repudiando, e não apenas obra em si.

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