O Puritano vs. O Asceta


Pax Christi!

(…)

O puritano não tem uma preocupação *real* em "não ser do mundo", sim em ser *contra a bagunça do mundo*. Ele é tão do mundo, que parece anti-mundo. A prática dele é pautada (no sentido jornalístico) pelo mundo. Ele só é contra a zorra, mas é tão definido pelo mundo quanto o hedonista. A preocupação dele é de ser contra o mundo, este mundo; ele é contra a desordem na cidade do homem, não a favor da Cidade de Deus.

O asceta, ao contrário do puritano, não é do mundo. Ele não se define pelo mundo. Um asceta vive feliz no alto de uma coluna (como São Simeão Estilita, por exemplo), mas um puritano ficaria horrorizado só de pensar em fazer tamanho "escândalo".

(…)

O católico não é do mundo, mas vive no mundo como um exilado em terra estranha; sua pátria é o Céu. O ascetismo é um meio, um modo de viver no mundo sem ser do mundo.
O puritano é do mundo e vive no mundo; sua pátria é uma versão idealizada do mundo. Seu ideal é um mundo extremamente ordenado, e o ascetismo lhe parece uma fuga da realidade.
O hedonista é do mundo e vive no mundo. Sua pátria é o prazer pessoal que ele tira do mundo e no mundo, e seu ideal é um mundo menor e mais confortável.

O puritanismo é tão comum, inclusive, no meio comunista quanto no meio protestante. Isto ocorre justamente pq a idéia de um mundo ordenado, de um mundo perfeito, que apela ao puritano, é em tese o objetivo final do comunista. A Marina (ex-candidata à presidência), por exemplo, é mais puritana por comunista que por protestante. O horror do comunista ao mercado tem a mesma fôrma de horror à "bagunça" que o horror do puritano.

Para o puritano, a mortificação não faz sentido; o que faz sentido é a mesmice, a "calma", a "Ordnung" pequeno-burguesa, que é igual sempre, todos os dias, em todos os momentos. Puritanos têm horror ao tempo litúrgico, às festas de padroeiro em que um bêbado grita "Viva São João" enquanto queima a mão ao segurar mal um morteiro aceso, etc.

Já o asceta não vai se embebedar na festa, mas vai sorrir ao ver o amor do bêbado a São João, e considerar que o bêbado é provavelmente mais santo que ele, podendo se dar ao luxo de beber. O asceta vai fazer mortificações para não se prender ao mundo, enquanto o puritano vai querer *que o mundo faça mortificações* para se adequar à ordem que ele deseja.

O puritano se vê como superior, o asceta como exilado; o puritano acha que suas ações são exemplares, e o asceta acha que suas tentações mostram a sua fraqueza e sua dependência absoluta de Deus.

[as culturas puritanas:] são modos de "comprovar" a suposta superioridade moral que é um pressuposto do puritano, garantindo ao mesmo tempo a vigilância vinda de fora dos outros puritanos.

O asceta vive no fundo de uma caverna, onde ninguém o vê lutar – só ele e Deus – contra as tentações, que ele percebe como enormes e perigosíssimas; o puritano vive numa vitrine, para que todos vejam claramente como ele vive corretamente, sem cair em tentações – percebidas como coisas que só afetam os fracos, o que ele certamente não é.

É esta negação da natureza humana que faz com que o puritano tenha tamanho horror ao tempo litúrgico. O puritano não entende o sentido da oração do publicano, e prefere entender a Quaresma como um momento de "ordem" (afinal, *ele* não precisa se mortificar! Os outros é que vivem em desordem, ele vive corretamente!), ficando meio ressabiado com a Páscoa. Por ele, a Quaresma duraria o tempo todo; é meio "escandaloso" ver aquela gente toda pulando de alegria na Páscoa, quando é tão evidente que eles vivem em desordem!!!

Já o asceta ama a Páscoa, pq nela até mesmo ele, que tem tamanha dificuldade em viver santamente, pode se alegrar com o presente imerecido da possibilidade de Salvação. E ama a Quaresma, onde ele pode se mortificar mais ainda, para tentar chegar um pouco mais perto de aceitar a graça que vem na Páscoa.

O puritano *sabe* que não é hedonista, e despreza o hedonista. O asceta tem certeza de que é hedonista, e tem muito medo disso; só não se desespera pq confia na graça de Deus.

A comparação é entre a *proibição* da venda de cerveja e a distribuição de camisinhas. Ambas são maneiras de garantir que *os outros* vivam "ordenadamente", forçando uma ordem anti-natural.

Mas justamente; o puritano não compraria cerveja nem fornicaria. Mas ele quer impedir que *os outros* comprem cerveja, e quer "ordenar" a fornicação *alheia*. Puritanos, não podemos esquecer, são do mundo. Se a "ordem" do mundo passa por camisinhas, ele distribui camisinhas. Não é difícil imaginar a Heloísa Helena distribuindo camisinhas, por exemplo; o próprio desprezo do puritano pelos fornicadores e pelos bebedores de cerveja faz com que ele – de alto de sua superioridade moral – imponha desconfortos para "ordenar ao menos um pouquinho" aqueles perdidos. "Pelo menos aqui não vão ter como comprar cerveja"; "pelo menos hoje não vão sair se matando de aids"; "pelo menos lá fora, na chuva, a fumaça dessa chupeta do capeta não vai impregnar os móveis". E isso o faz se sentir tolerante em relação às falhas de caráter e fraquezas dos outros: "eu deveria proibi-lo de fumar, mas tolero que vc fume lá fora"; "você deveria parar completamente de beber cerveja, mas eu até tolero, suspirando, que vc beba uma latinha depois de jogar bola; beber no encontro de oração, contudo, é patético e evidentemente tem que ser proibido"; "você deveria ter relações sexuais apenas para aliviar-se, sem jamais esquecer a pílula, de preferência com hora marcada e sem prazer; mas como não consegue se controlar, como é um fraco, eu até tolero que vc faça essas coisas suadas e nojentas fora de hora, desde que use uma camisinha para não se matar". E por aí vai.

Na verdade, o puritano *gosta* da camisinha, por diminuir o prazer, separar as partes mais nojentas e impedir que a casa fique cheia de crianças, que são um sinal evidente de falta de controle e de ordem.

seu irmão em Cristo,

Carlos

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