Margaret Thacher segundo Reinaldo Azevedo


Sem Margaret Thatcher, a Inglaterra estaria no buraco. Como eu sei? Era o mais estatista e estatizado dos países europeus, decorrência das “conquistas” do Partido Trabalhista, uma agremiação surgida em 1900, criada por socialistas dos mais diversos matizes, por sindicalistas e por intelectuais marxistas. Era socialista, mas não revolucionário. O PT, 80 anos depois, apareceu em terras brasileiras com discurso semelhante — já explico por que isso tem lá a sua ironia. Em 1918, os trabalhistas incorporaram a seu programa a chamada Cláusula IV, que estabelece como norte a propriedade coletiva dos meios de produção. Atenção! O texto só foi mudado na convenção nacional de 1992, 74 anos depois! Se você clicar aqui, terá acesso às duas versões da cláusula, a anterior e a que está em curso, que defende a colaboração entre o capital privado e o estado.

A maior obra da conservadora Thatcher foi mudar o Partido Trabalhista, pondo um ponto final à ilusão, ao menos nas democracias europeias, de que o estado-empresário é o melhor indutor do desenvolvimento. Ela chegou ao poder em 1979 e deu início a um processo de desestatização da economia que tirou a Grã-Bretanha do impasse, refém que era do sindicalismo barra-pesada e da ineficiência. É vista como a precursora do que pode ser considerado mais uma invenção da esquerda do que da direita: o tal “neoliberalismo”, que encontraria em Ronald Reagan, que assumiu a Presidência dos EUA em 1981, o outro protagonista.

Não havia nada de “novo” no liberalismo de Thatcher e de Reagan, sempre lembrando que atuaram em ambientes bastante distintos no que respeita à presença do Estado na economia; ela teve muito mais trabalho. A novidade ficou por conta, talvez, da revalorização das forças de mercado, tidas, então, pelas esquerdas intelectuais como uma fase superada da civilização.

Thatcher comprou todas as brigas contra o sindicalismo brucutu e não cedeu. Foi primeira-ministra por mais de 11 anos (de maio de 1979 a novembro de 1990; seu sucessor, o também conservador John Major, ficou no poder até maio de 1997. As mudanças que ela operou na economia garantiram aos conservadores 18 anos de poder.

E agora voltamos aos trabalhistas. Em 1992, o partido decidiu mudar o conteúdo da Cláusula IV. A ideia de uma Grã-Bretanha socialista, organizada segundo a propriedade coletiva dos meios de produção, se parecia, vá lá, utópica no papel, havia se tornado ridícula quando confrontada com a realidade. Em 1997, um Partido Trabalhista, se me permitem a brincadeira, “thatcherista” vence a eleição e conduz Tony Blair ao poder por 10 anos — mais três de seu correligionário Gordon Brown. Nos 13 anos de trabalhismo pós-Thatcher, os marcos da economia continuaram rigorosamente os mesmos. Houve uma inflexão ou outra mais “social” na saúde e na educação e só.

Não é nenhum exagero afirmar que a Grã-Bretanha está há 34 anos sob os fundamentos que Thatcher reintroduziu na economia. E não há recuo possível. A sua última grande — enorme contribuição! — ao país foi dizer um sonoro “não” à Zona do Euro, que antevia como uma usina de crises, que teria de ficar sob a permanente regência da Alemanha. Como um único Banco Central haveria de arbitrar demandas de economias tão distintas? O presente, é evidente, lhe dá razão.

Fora do tempo
Thatcher se torna primeira-ministra em 1979, quando se ensaiava por aqui a formação do PT, fundado um ano depois. Em 1981, Reagan se elege nos EUA. Em 1982, Lula disputa o governo de São Paulo com uma plataforma socialista, discurso repetido em 1989, na eleição presidencial. Estávamos, obviamente, na contramão da história. A Constituição de 1988 vem à luz pautada, em muitos aspectos, por um estatismo xucro, com aversão clara ao capital. A Grã-Bretanha estava no 10º ano de suas reformas.

O Plano Real nos salvou do abismo, e não só pela virtude em si de ter posto a inflação sob controle. É que esse bem teve um desdobramento político importante: a eleição de FHC em 1994, com a reeleição em 1998.  Atenção! Dezesseis anos depois da chegada de Thacher ao poder e 14 depois da chegada de Reagan, o Brasil optou por umas poucas privatizações — enfrentando a tropa de choque sindical e o lulo-petismo — que fizeram do Brasil, apesar de tudo, um país contemporâneo, ainda que sempre na rabeira, como hoje.

As reformas que o Brasil empreendeu na década de 1990 só foram possíveis porque Thatcher e Reagan haviam recuperado, muito antes, o prestígio das leis de mercado e demonstrado, na prática, que o Estado, quando refém de corporações de ofício, produz mesmo é atraso orgulhoso.

Aqui e ali vocês lerão que a crise de 2008 ainda é desdobramento da desregulação da economia promovida pela dupla e coisa e tal. Bobagem! Isso é só ideologia chinfrim. Aos respectivos governos de ambos se sucederam gestões ditas “progressistas”, com inflexões à esquerda — a possível em cada país. Por que não se operaram, então, mudanças de rumo? De resto, a bolha imobiliária americana não se formou porque se seguiram as leis de mercado; ela só se tornou gigantesca porque essas leis não foram seguidas.

Começo a encerrar com mais umas considerações sobre o Brasil,. Também o PT, no poder, abandonou o seu credo socialista de antes, a exemplo do Partido Trabalhista inglês. Só que aquele teve a decência de mudar seus estatutos, não é? O PT continua com a sua cantilena dita socialista, o que é mera propaganda. Socialista não é, mas autoritário sim! O país opera segundo as leis de mercado, mas o sindical-estatismo tem peso crescente não exatamente na economia, mas no custo Brasil.

As esquerdas, especialmente em nosso país, foram hábeis na campanha de demonização do chamado “neoliberalismo”, especialmente depois da crise de 2008. Querem o Estado como patrão da sociedade. É claro que o modelo não vai dar certo. Já não está dando, diga-se. País que cresce menos de 1% com inflação renitente e baixo investimento está encalacrado. Mas, por enquanto, fica ancorado no consumo e na criação de empregos de baixa qualidade. Popular, o governo dá Bolsa Família de um lado e Bolsa Empresário de outro. Aloizio Mercadante, candidato a pensador desse novo momento brasileiro, filosofou em entrevista ao Estadão que, para o povo, PIB se traduz por emprego e consumo. O crescimento não tem tanta importância. Se o país cresce 1% e se o que importa, como quer o mestre, é emprego e consumo, esse desajuste se alimenta de alguma seiva. No caso, alimenta-se do nosso futuro.

Uma Margaret Thatcher no Brasil parece coisa impossível. Há alguns dias, Dilma anunciou a criação de uma estatal das águas, “Hidrobras” ou coisa assim. O Estado gerenciando a sociedade, em vez de a sociedade gerenciando o estado, está se tornando nossa segunda natureza.

Morreu uma grande mulher. Foi uma das principais personagens de uma mudança na economia de efeitos planetários.

Margaret Thacher morreu pobre.

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