finis est primus in intentione, sed ultimus in ordine executioni s – O fim é o primeiro no pensamento e o último na execução


Por Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria

Peço que rezem pelas ordenações sacerdotais e diaconais que ocorrerão no IBP no sábado que vem, dia 7. Haverá dois padres e dois diáconos.

Começamos hoje o tempo do Advento, tempo de preparação para o Natal e tempo particular de conversão, de mudança de vida, de bons propósitos e de fazer uma boa confissão, para que possamos caminhar de dia, honestamente, revestidos de Nosso Senhor Jesus Cristo. É tempo de penitência, com o roxo dos paramentos, com o silêncio do órgão que não toca sozinho, com a obrigatória ausência de flores, com o Glória que é omitido.

“Irmãos (…) é já hora de nos levantarmos do sono. (…) Deixemos, pois, as obras das trevas, e revistamo-nos das armas da luz.”

Caros católicos, começamos o novo ano litúrgico como terminamos o último, com o Evangelho que nos fala do final dos tempos, da vinda gloriosa de Cristo como juiz universal. É fácil compreender porque terminamos assim o ano litúrgico no domingo passado: terminamos o ano litúrgico assim porque assim terminará esse mundo. Todavia, porque começar o ano litúrgico pelo fim? A resposta é simples. A primeira coisa que um ser inteligente, como nós seres humanos, concebe é o seu objetivo, a sua finalidade. Antes de agir, antes de pensar em outra coisa concebemos o objetivo, a finalidade da nossa ação. Somente depois de concebermos o nosso fim é que estabelecemos os meios para buscar o fim. (O fim é o primeiro no pensamento e o último na execução: finis est primus in intentione, sed ultimus in ordine executionis) Por exemplo, primeiro pensamos: meu objetivo é ir a Roma. Em seguida, pensamos nos meios adequados para chegar até lá. Dessa forma, a Igreja coloca logo no início do ano litúrgico o nosso fim, o juízo, para que possamos agir sempre tendo em vista esse juízo e para que busquemos a nossa salvação, para que possamos ser julgados dignos de alcançar o reino de Deus pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Desde o início do ano litúrgico, desde o início de nossas vidas, devemos agir para alcançar o céu, para sermos julgados justos.

Portanto, o que importa é a nossa salvação. É a única coisa que realmente importa. Vivemos, porém, em uma época de grande crise na sociedade e também de uma grande crise na Igreja: crise de fé, crise moral, crise litúrgica. Tal crise resulta na descristianização quase completa dos povos. E diante de tamanha crise, por fraqueza na fé, por falta de esperança e desânimo, surgem algumas falsas soluções, que agravam os problemas, que dificultam a nossa salvação. Diante da crise, é preciso colocar em prática a verdadeira solução. Vejamos, então, quais são algumas dessas falsas soluções, para evitá-las e vejamos qual é a verdadeira solução para colocá-la em prática.

A primeira falsa solução é falsa porque vai contra a fé. Ela consiste em aderir a falsas revelações, a revelações não aprovadas pela Igreja. Muitas dessas aparições são contrárias à fé, propondo, por exemplo, a igualdade de todas as religiões. Algumas são também cismáticas, com a nomeação direta de um novo Papa em substituição ao Papa que se encontra no Vaticano. Algumas outras aparições são simplesmente bobas e sem substância. Diante da crise, da fé que começa a fraquejar, a pessoa recorre a fenômenos extraordinários, a soluções instantâneas, a falsos profetas. Muitas dessas falsas aparições têm justamente um certo caráter conservador, com uma liturgia mais digna, com uma moral mais séria. Porém, nem tudo o que é conservador é bom. Não pode ser uma verdadeira solução aquela que se opõe à fé ou a fragiliza. A primeira falsa solução são as falsas aparições ou os falsos profetas que existem e são muitos em nossos dias.

A segunda falsa solução diante dos males consiste em uma atenção excessiva ao mal, justamente. Passa-se, então, a estudar e a considerar unicamente o demônio e sua ação no mundo, passa-se a considerar a maçonaria e sua atuação, etc. Ou, então, passa-se a aguardar o fim do mundo como iminente, passa-se a se preocupar excessivamente para saber se estamos no fim dos tempos ou não. É evidente que é necessário conhecer o demônio e sua ação, para nos defendermos e não cairmos em tentação. É evidente que é necessário conhecer a atuação da maçonaria na história e sua condenação constante pelos Papa até os dias de hoje, dada a incompatibilidade total de princípios da Igreja e da maçonaria. É evidente que é bom conhecer os sinais dos fins dos tempos, embora não possamos saber se esses sinais anunciam o fim dos tempos ou se são uma prefiguração do fim dos tempos, pois NS diz que ninguém sabe a hora em que Ele virá. Todavia, caros católicos, embora seja bom e necessário conhecer tudo isso, não podemos nos limitar a isso, pois isso claramente não é o mais importante: o mais importante é união com Nosso Senhor Jesus Cristo. Apegar-se excessivamente a essas coisas tende a nos tirar o ânimo, tende a nos levar ao desespero, tende a nos paralisar. Esse apego excessivo tende a nos fazer esquecer, na prática, que Deus é o mestre da história. Assim, ocupados excessivamente com o mal e suas causas, deixaremos de fazer o bem que podemos e devemos fazer, mesmo com a crise que vivemos.

Outra falsa solução consiste em se limitar a coisas polêmicas de doutrina e de liturgia ou em preocupar-se demasiadamente com o que dizem os outros. É evidente que devemos ter um conhecimento dessas coisas, um conhecimento, porém, prudente e sóbrio, em conformidade com o nosso estado. Não devemos nos preocupar excessivamente com o que diz tal ou tal pessoa, por mais que importante que seja, ao ponto de nos paralisar ou de nos fazer desesperar, quando ela diz algo imprudente ou incorreto. Não seremos julgados pelo que dizem os outros, mas pela nossa fé e pela nossa caridade. Não seremos tampouco julgados simplesmente pelo conhecimento de questões polêmicas e complexas, mas pela fé naquilo que Deus nos revelou e pelas obras correspondentes a essa fé.

Outra falsa solução consistiria em buscar a solução em dons e carismas extraordinários ou no sentimentalismo. Erro, infelizmente, bastante comum, que coloca a união com Deus onde ela não está. A união com Deus, a fé e a caridade não são sentimentos. A fé é a adesão de nossa inteligência às verdades reveladas por Deus e a caridade é colocar em prática os mandamentos. Os dons e carismas não indicam santidade e não devem ser buscados. O Padre Royo Marín, grande teólogo, diz: “seria temerário desejar ou pedir a Deus essas graças gratis datae (carismáticas), uma vez que não são necessárias nem para a salvação nem para a santificação e requerem – muitas delas ao menos – uma intervenção milagrosa de Deus. Vale mais um pequeno ato de amor a Deus que ressuscitar um morto.” (Royo Marín, Teologia de la Perfección Cristiana, p. 888). E como não se deve desejar ou buscar esse tipo de graças, o resultado, diz o Padre Jordan Aumann, pode ser esse: “uma pessoa pode ficar sob o poder do demônio em razão de um desejo descontrolado de experimentar fenômenos místicos extraordinários ou graças carismáticas.” (Spiritual Theology, p. 411). Portanto, o sentimentalismo, ou a busca por dons extraordinários também é uma falsa solução.

Outras duas soluções insuficientes são o apostolado e o estudo da doutrina da fé e da moral quando se fazem independentemente de uma vida interior sólida e com espírito demasiado natural, como diz o Padre Garrigou-Lagrange (De sanctificatione Sacerdotum, pp. 5 e ss.).

Caros católicos, como podemos constatar, a verdadeira solução diante da crise consiste em buscar a santidade, em buscá-la com verdadeira determinação. A verdadeira santidade não consiste em penitências, não consiste em certas orações ou práticas de piedade, não consiste em simplesmente conhecer a doutrina. É óbvio que a santidade supõe orações, supõe práticas de piedade, supõe penitências e supõe o conhecimento da doutrina conforme o nosso estado, mas ela não se resume a isso. A santidade consiste na perfeição da caridade, na nossa união com Deus, na prática de seus mandamentos.

Resumidamente, essa santidade consiste, de um lado, na negação de nossa vontade própria. Nosso Senhor diz: aquele que quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. E no Pai Nosso rezamos “seja feita a vossa vontade”. Trata-se, portanto, de conformar inteiramente nossa vontade com a vontade de Deus, infinitamente bom. Além da negação de si mesmo, essa santidade consiste, por outro lado, também em um espírito de oração, de união constante com Deus, que só pode vir da oração mental, quer dizer da meditação católica. Quem quer ser realmente santo deve parar alguns minutos por dia e considerar uma verdade sobrenatural, uma virtude, um exemplo de Cristo, de Nossa Senhora ou dos santos e procurar adequar sua vida a essa verdade, a essa virtude, a esse exemplo, avaliando como tem se comportado até aqui, considerando o que é preciso corrigir, inflamando a sua vontade no amor ao bem e à verdade, tomando uma resolução em conformidade com o que foi meditado e pedindo ajuda a Nosso Senhor, a Nossa Senhora e aos Santos para que possa cumprir a resolução. A meditação católica não é yoga nem meditação transcendental, que negam a razão e buscam, no fundo, a ausência de qualquer desejo. A meditação católica consiste, ao contrário, em usar a nossa razão e a nossa vontade, auxiliadas pela graça, para que possamos amar a Cristo e a verdade e sofrer por Ele e pela verdade, como Ele nos amou e sofreu por nós.

É, então, pela santidade, caros católicos, que podemos combater a crise e restaurar tudo em Cristo. É a santidade a verdadeira solução. É a santidade que supõe uma fé viva, que supõe o conhecimento da doutrina católica. É a santidade que faz todas as coisas para que Deus seja mais conhecido, amado e servido. É a santidade que ajuda o nosso próximo a alcançar o céu.

Se Deus permite tantos males, é para que possamos tirar deles um bem superior, que é uma fé mais firme, diante de um mundo descrente. Ele quer também que tenhamos uma grande esperança na sua bondade e misericórdia, sempre prontas para nos socorrer. Ele quer que tenhamos uma confiança completa na sua divina providência que governa todas as coisas. Ele quer que diante dos males, nos unamos a Ele, que é o bem infinito. Diante da crise e dos males, não devemos nos paralisar, nos desanimar, nos desesperar, achar que está tudo perdido. Ao contrário, devemos fazer todo o bem que podemos e devemos fazer aqui e agora. Devemos fazer todo esse bem com entusiasmo e alegria, sem nos deixar abater. Já é hora de nos levantarmos do sono, como diz São Paulo. Nosso exemplo, nesse tempo do advento, que é extremamente mariano, deve ser Nossa Senhora, inabalável durante a paixão e morte de Cristo, aguardando com fé viva e esperança firme a ressurreição. Nesse tempo de paixão da Igreja, devemos nos manter firmes na fé, na esperança, na caridade, sabendo que a verdadeira solução é o apostolado que decorre da santidade, que é fruto dela. Busquemos a verdadeira solução, caros católicos, que é a santidade.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

São Pio V

Sermão 1º Domingo do Advento – Padre Daniel Pinheiro.

[Sermão] Advento: A verdadeira solução é a santidade

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