Direitas & Esquerdas


Orlando Fedeli

Nas análises políticas contemporâneas, os termos esquerda e direita aparecem com freqüência. Com eles se etiquetam políticos, partidos, jornais, sacerdotes, artistas. Entretanto, os conceitos de esquerda e direita são nebulosos. Poucos sabem precisamente o que eles significam. Em geral, diz-se que os socialistas são de esquerda e que o nazismo e o fascismo foram movimentos de direita. A imprensa – em geral esquerdista – aureola o conceito de esquerda com um nimbo de simpatia. Ser de esquerda, na imprensa, é ser humano, compreensivo, científico, favorável ao progresso; é ser amigo, igualitário; é ser aberto e anti-ditatorial. É ainda ser favorável a uma moral mais moderna e ter gostos jovens. Ser esquerdista é apresentado como ser intelectual, desinibido, descomplexado, simples. Democrático.

Ser de direita, ao contrário, para essa imprensa, é ser radical, favorável ao uso da força, ditatorial, totalitário, imperativo e autoritário. É ser defensor de preconceitos e de tudo quanto é retrógrado. E ser fechado e contra o progresso. Esses são os rótulos.

Corresponderão, contudo, essas etiquetas – fabricadas pela esquerda – à realidade?

Vejamos inicialmente a origem dessas designações.

Os termos na História

Em setembro de 1792, após a derrubada da monarquia francesa, inaugurou-se a Convenção, eleita para dar à França uma nova constituição. Os convencionais se reuniram em uma sala com bancos dispostos em forma de hemiciclo, frente à mesa da presidência.

Ao entrar na sala pela primeira vez, Marat, um dos líderes do golpe de 10 de agosto, que derrubara a monarquia, correu para os bancos mais altos à esquerda da mesa presidencial. Seus amigos e seguidores acorreram para junto dele. Os girondinos, por horror à Marat, ocuparam a posição extrema oposta, à direita da mesa.

Marat era um maníaco de aspecto repugnante, coberto de feridas e de sujeira, a ponto de causar asco até a seus companheiros de partido. Dizia que para salvar a França era preciso matar duzentas e sessenta mil pessoas. Que fossem inocentes ou não, pouco importava. Desde que se matasse esse número de pessoas, a França estaria salva.

Marat, com os jacobinos mais radicalmente igualitários, formaram o partido da Montanha.

Em oposição à Montanha estavam os girondinos. Eram, em geral, advogados românticos que sonhavam com uma república idealmente igualitária. O que eles sonhavam e declamavam, Marat, Robespierre e Danton realizavam. E vendo seus sonhos cruelmente realizados, os girondinos estremeciam. Marat os expurgou da Convenção. Uma moça girondina os vingou, matando Marat. Os girondinos acabaram na guilhotina. Sua mentora, Madame Roland, vendo os sonhos da gironda transformados em sangue, exclamou, antes de morrer guilhotinada: “Liberdade, liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome”. Até hoje é assim.

Desde então, os termos esquerda e direita passaram a designar a posição político-social dos grupos em relação à igualdade. Aqueles que desejam maior igualdade são chamados de esquerda, enquanto de direita seriam os que se opõe a um maior nivelamento dos homens.

Como se vê, os termos direita e esquerda são relativos. É-se de direita ou de esquerda em relação a outro grupo. Os próprios girondinos haviam sido a extrema esquerda da Assembléia Legislativa até setembro de 1792. Feitas as eleições para a Convenção, os girondinos ficaram sendo a extrema direita porque os demais deputados eram mais radicalmente igualitários do que eles.

No Brasil da Regência, o Partido Liberal foi de extrema esquerda. Hoje, o liberalismo é a direita.

Em um país onde houvesse três partidos: o anarquista, o comunista e o socialista, este último seria a direita por ser o menos igualitário dos três.

A chave do problema

A nota essencial para a classificação dos movimentos políticos é, portanto, o grau de igualitarismo que eles defendem em relação a outros.

É do igualitarismo que decorrem outras características do esquerdismo como, por exemplo, o coletivismo, o estatismo, o anti-elitismo, o populismo, o nacionalismo, a proletarização dos costumes e dos estilos, o materialismo, o humanismo naturalista, a fé no homem, na ciência e no progresso, o utopismo.

Por outro lado, não é verdade que o ditatorialismo seja a nota característica da direita. O comunismo sempre foi ditatorial e define a si mesmo como “ditadura do proletariado”. Fidel Castro é esquerdista e ditador. Gorbachev, Deng Ciao Ping, Daniel Ortega e tantos outros são ditadores e são de esquerda. As chamadas Repúblicas Democráticas Populares nada têm de democráticas. São ditaduras comunistas. Esquerda e ditadura são quase sinônimos. Esquerda e totalitarismo são necessariamente ligados, porque o igualitarismo leva naturalmente ao Estado totalitário.

Também não é verdade que o militarismo seja sempre de direita. Fidel, Mao, Stalin, Daniel Ortega só se apresentam, ou se apresentavam, fardados.

Outro grave equívoco é designar os regimes nazista e fascista como direitistas. Nazismo e fascismo foram movimentos igualitários. Defenderam o socialismo e estatizaram a economia e a educação. Foram totalitários e anti-aristocráticos. Hitler odiava a elite militar alemã. Foi para combater a influência e o poder do exército que ele criou as milícias SA e SS.

Direita e esquerda na Igreja

Recentemente, com a infiltração das ideologias políticas nos meios religiosos, passou-se a falar em direita e esquerda católicas. De fato, os chamados católicos progressistas sempre se mostraram favoráveis aos partidos políticos de esquerda e, logicamente, querem que a Igreja seja mais igualitária. Por isso são contra a monarquia papal e seus símbolos: tiaras, sédias gestatórias, soberania do Vaticano, etc. Paulo VI vendeu uma de suas tiaras e fez cunhar uma medalha comemorativa do encerramento do Concílio Vaticano II, em que aparece depondo a tiara diante de um crucifixo. Aparentemente devoto. Realmente igualitário. Politicamente esquerdista.

Por serem igualitários, os progressistas querem que na Igreja todo poder seja colegiado e o Papa, apenas o “primus inter pares” dos bispos. Inventaram as Conferências Episcopais que, como afirma o Cardeal Ratzinger, não têm nenhuma base teológica e cujas decisões não têm força de lei.

Por serem igualitários, os progressistas querem a democratização de toda a Igreja, nivelando o povo ao sacerdote, a Igreja discente à docente. Daí a liturgia progressista ser contrária a toda pompa. Por seu igualitarismo artificial, quando se apresenta como popular, a Nova Igreja só consegue ser vulgar, na liturgia, nos cânticos, nas suas manifestações, na sua retórica e até na sua piedade.

O esquerdismo eclesiástico, ao combater a autoridade monárquica do Papa, ao se mostrar hostil a uma Igreja hierárquica tal como Deus a fez, ao defender a igualdade entre o leigo e o sacerdote, é herético.

Por isto, o uso da terminologia política direita e esquerda na Igreja tem o grave inconveniente de mascarar uma posição herética. Além disso, o relativismo dessas correntes políticas é fonte de não poucas confusões e ambigüidades.

Que dizer então da chamada direita política católica? Desde a Revolução Francesa, os que se mantiveram na defesa das tradições políticas e religiosas, defendendo a desigualdade de direitos – ensinada, aliás, por todos os Papas – foram chamados direitistas. A etiqueta “direita” acabou englobando, entretanto, desde os “ultra” monarquistas da Restauração até os católicos que apoiaram o nazi-fascismo socialista totalitário e pagão. Isto é, “oves, boves et serpentes”. Muitas serpentes. E muitas “oves” tradicionalistas, piedosas, que são, na verdade, lobos rapaces.

Com efeito, há na direita, tanto política quanto eclesiástica, todo um largo veio que, no fundo, quer a igualdade. Na política, tal veio se apresenta como anti-comunista, mas defende um Estado totalitário, socialista e igualitário. Foi o que fez o nazismo. Foi o que fez o fascismo.

A corrente esotérica que controla grande parte dos movimentos de direita se apresenta como continuadora e defensora de uma “tradição” proveniente de revelação feita a Adão e transmitida secretamente através dos tempos. Ela afirma que todas as religiões possuem com maior ou menor densidade essa revelação primitiva. Por isso, todas teriam algo de verdade que englobasse em si toda a tradição, respeitando o que de verdadeiro existisse em cada religião. Nisso coincidem o tradicionalista Joseph de Maistre e o esquerdismo ecumênico do Concílio Vaticano II.

Por fim, uma última observação. A esquerda sonha com a realização da Utopia, isto é, com uma República Universal democrática, na qual não haveria nem nações, nem fronteiras, nem cercas, nem propriedades, nem guerra, nem exércitos, nem prisões, nem ladrões. Utopia em que a ciência e a técnica eliminariam a miséria e a ignorância, a doença e a dor e, quem sabe, até a morte.

Não é menos delirante o sonho da direita “tradicionalista”. Esta sonha em restabelecer o paraíso terrestre. Ela quer voltar ao Éden e afirma que haverá o Reino de Deus na Terra. Por uma intervenção milagrosa da graça divina, todo o mal seria banido do mundo. Todos voltariam ao estado de inocência. Não haveria mais guerras, nem dor, nem morte, nem pecado. Seria o Reino do Amor. E duraria mil anos. Joaquim de Flora foi um dos pais desse sonho milenarista. O III Reich de Hitler foi uma das tentativas de ralizar o milênio.

Frei Boff, hoje, com o apoio dos primos Lorscheider, anuncia que o Reino de Deus está próximo. Nesse Reino os homens serão cristificados e divinizados. O Reino de Deus boffista advirá com o fim do capitalismo e o estabelecimento de uma sociedade socialista e de uma igreja espiritual, democrática e igualitária. Uma Igreja popular e não divina. Como se vê, “tradicionalistas” e boffistas têm o mesmo sonho.

Direita e esquerda são irmãs gêmeas dialéticas.

Publicado no Jornal Veritas, no 5 – janeiro de 1986 – ano2

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