Papa Bento XVI: A Igreja e o Escândalo do abuso sexual


De 21 a 24 de fevereiro, a convite do Papa Francisco, os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo se reuniram no Vaticano para discutir a crise da Fé e da Igreja, uma crise palpável em todo o mundo após as estarrecedoras revelações dos abusos perpetrado por clérigos contra menores. A extensão e a gravidade dos incidentes relatados têm afligido profundamente tanto sacerdotes quanto leigos, e levou a não poucas pessoas a questionarem a própria fé da Igreja. Era necessário enviar uma mensagem forte e procurar um novo começo, com tal de tornar a Igreja novamente verdadeiramente credível como uma luz entre os povos e como uma força ativa contra os poderes da destruição.

Já que eu mesmo me encontrava servindo em uma posição de responsabilidade como pastor da Igreja no momento da eclosão pública da crise e durante seu desenvolvimento, eu tive que me perguntar – ainda que como emérito já não seja mais diretamente responsável por essa situação – o que eu podia fazer para contribuir com um novo começo em retrospecto. Assim, durante o período que vai do anúncio até a realização da reunião dos Presidentes das Conferências Episcopais, compilei algumas anotações com as quais creio poder oferecer uma ou duas observações e ajudar a Igreja nessa hora tão difícil. Tendo entrado em contato com o Secretário de Estado, Cardeal [Pietro] Parolin e o Santo Padre [Papa Francisco], pareceu-me apropriado publicar o texto resultante deste esforço no “Klerusblatt” (NdT: um jornal mensal para o clero de algumas dioceses da Baviera).

Meu trabalho está dividido em três partes. Na primeira, pretendo apresentar brevemente o contexto societário mais amplo da questão, sem o qual o problema não pode ser entendido. Eu tento mostrar que na década de 60 ocorreu um evento excepcional, em uma escala sem precedentes na história. Pode-se dizer que, nos 20 anos decorridos entre 1960 e 1980, os padrões vinculantes relativos à sexualidade até então entraram em colapso por completo, gerando uma ausência de normativa que já foi objeto de tentativas laboriosas de compreensão.

Na segunda parte, pretendo destacar os efeitos dessa situação na formação dos sacerdotes e na vida dos sacerdotes.

Finalmente, na terceira parte, gostaria de desenvolver algumas perspectivas para uma resposta adequada por parte da Igreja.

I.

(1) O assunto começa com a introdução, prescrita e apoiada pelo Estado, de crianças e jovens no tema da natureza da sexualidade. Na Alemanha, a então ministra da Saúde, [Käte] Strobel, mandou fazer um filme mostrando tudo o que antes não podia ser exibido publicamente, incluindo relações sexuais, e que passou a ser exibido com o propósito de educar os jovens. O que inicialmente se destinava apenas à educação sexual destes, por conseguinte, foi amplamente aceito como uma opção viável para o resto da sociedade.

Efeitos semelhantes foram alcançados pelo “Sexkoffer” publicado pelo governo austríaco [NdT: Uma espécie de ´kit´ repleto de material destinado à educação sexual usado nas escolas austríacas no final da década de 1980]. Filmes sexuais e pornográficos tornaram-se uma ocorrência comum, a ponto de serem exibidos nos cinemas [Bahnhofskinos]. Ainda me lembro de ter visto, andando pela cidade de Regensburg um dia, verdadeiras multidões de pessoas se alinhando em frente a uma grande sala de cinema, algo que anteriormente só havíamos visto nos tempos da guerra, quando alguma alocação especial era esperada. Lembro-me também de ter chegado à cidade na Sexta-feira Santa, no ano de 1970, e de ver todos os outdoors preenchidos por um grande cartaz de duas pessoas completamente nuas num abraço apertado.

Entre as liberdades pelas quais a Revolução de 1968 lutou estava a total liberdade sexual, uma que não mais possuía normas. A vontade de usar a violência, que caracterizou esses anos, está fortemente relacionada a esse colapso mental. Na verdade, os filmes sexuais não eram mais permitidos nos aviões porque poderiam gerar violência na pequena comunidade de passageiros. E dado que os excessos no vestuário também provocavam agressão, os diretores das escolas fizeram várias tentativas de introduzir uma vestimenta escolar que facilitasse um clima de aprendizado.

Parte da fisionomia da Revolução de 1968 foi que a pedofilia também foi diagnosticada como um comportamento aceitável e apropriado.

Para os jovens da Igreja, mas não apenas para eles, este foi um momento muito difícil em muitos aspectos. Sempre me perguntei como os jovens nessa situação poderiam se aproximar do sacerdócio e aceitá-lo com todas as suas ramificações. O extenso colapso das gerações seguintes de sacerdotes naqueles anos e o grande número de secularizações foram uma consequência de todos esses desenvolvimentos.

(2) Ao mesmo tempo, independentemente destes desenvolvimentos, a teologia moral católica sofreu um colapso que deixou a Igreja desamparada diante dessas mudanças na sociedade. Vou tentar delinear brevemente a trajetória que esse desenvolvimento percorreu.

Até o Concílio Vaticano II, a teologia moral católica era em grande parte baseada na lei natural, enquanto as Sagradas Escrituras eram citadas apenas para obter contexto ou justificação. Na luta do Concílio por uma nova compreensão do Apocalipse, a opção pela lei natural foi amplamente abandonada, e uma teologia moral baseada inteiramente na Bíblia foi exigida.

Ainda me lembro como a faculdade jesuíta em Frankfurt treinou o jovem e inteligente Padre (Schüller) com o propósito de desenvolver uma moralidade baseada inteiramente nas Escrituras. A bela dissertação do Padre (Bruno) Schüller mostra um primeiro passo para a construção de uma moralidade baseada nas Escrituras. O sacerdote foi então enviado para os Estados Unidos e voltou, percebendo que somente com a Bíblia a moralidade não poderia ser expressa sistematicamente. Então ele tentou uma teologia moral mais pragmática, sem poder dar uma resposta à crise da moralidade.

Consequentemente, nada poderia ser considerado um bem absoluto, assim como, por outro lado, coisa alguma poderia ser considerada fundamentalmente ruim; (Poderia haver) apenas juízos de valor relativos. Não havia mais o bom em seu sentido mais absoluto, apenas o aquilo que era relativamente melhor ou contingente para o momento e as circunstâncias específicas.

A crise da justificação e da forma de expor a moral católica alcançou proporções dramáticas no final dos anos 80 e 90. Em 5 de janeiro de 1989, foi publicada a “Declaração de Colônia”, assinada por 15 catedráticos católicos de teologia. O documento se concentrou em vários pontos da crise da relação entre o magistério dos bispos e a tarefa da teologia. (As reações a) este texto, que em princípio não passaram do usual nível de protestos, cresceu rapidamente e se tornou um grito contra o magistério da Igreja e reuniu, clara e visivelmente, o potencial de um protesto global contra os esperados textos doutrinais de João Paulo II. (cf. (cf. D. Mieth, Kölner Erklärung, LThK, VI3, p. 196) (N.dT: O LTHK é o Lexikon für Theologie und Kirche, o Lexicon de Teologia e a Igreja, cujos editores incluíam o teólogo Karl Rahner y o hoje Cardeal alemão Walter Kasper).

O Papa João Paulo II, que conhecia muito bem e acompanhava de perto a situação em que a teologia moral se encontrava, encomendou o trabalho de uma encíclica para tornar as coisas claras novamente. E foi publicada sob o título de Veritatis Splendor no dia 6 de agosto de 1993 e logo gerou reações veementes de vários teólogos morais. Antes disso, o Catecismo da Igreja Católica (publicado em 1992) já havia apresentado, de maneira persuasiva e sistemática, a moralidade proclamada pela Igreja.

Nunca vou esquecer a forma como o então líder teólogo moral alemão, Franz Böckle, tendo retornado para sua Suíça natalapós a aposentadoria, anunciou em relação à Veritatis Splendor que se a encíclica determinasse que existem ações que sempre e em todas as circunstâncias deveriam ser classificados como más, ele iria rebatê-la com todos os recursos à sua disposição.

Foi Deus, o Misericordioso, que evitou que este propósito fosse executado, pois Böckle morreu em 8 de julho de 1991. A encíclica foi publicada em 06 de agosto de 1993 e efetivamente incluía a determinação de que certas ações jamais podem ser consideradas boas.

O Papa estava plenamente consciente da importância dessa decisão e, nessa parte do texto, consultou novamente os melhores especialistas que não participaram da edição da encíclica. Ele sabia que não deveria deixar dúvidas sobre o fato de que a moralidade que busca o equilíbrio de bens deve ter sempre um limite final. Alguns bens simplesmente não estão sujeitos a concessões.

Há valores que jamais devem ser abandonados por um valor mais alto e até mesmo superar a preservação da vida física. Há martírio. Deus é mais. Ele vale mais que a própria sobrevivência física. Uma vida comprada pela negação de Deus, uma vida baseada em uma mentira, ao final, não é vida.

O martírio é a categoria básica da existência cristã. O fato de que o mesmo já não seja moralmente necessário, como afirma a teoria defendida por Böckle e muitos outros, demonstra que a própria essência do cristianismo está em jogo aqui.

Na teologia moral, no entanto, outra questão tornou-se urgente: a hipótese de que o Magistério da Igreja deveria ter competência final (“infalibilidade”) apenas nas questões relativas à fé e já não nas que se referem à moralidade, havia ganhado ampla aceitação. Dizia-se que estas questões não deveriam cair no âmbito de decisões infalíveis do magistério da Igreja. Provavelmente há algo de verdade nesta hipótese e que merece mais discussão, mas há um conjunto mínimo de questões morais que estão intimamente relacionadas com o princípio fundamental da fé, o qual deve ser defendido, para que a fé não venha a ser reduzida a uma teoria e que já não seja reconhecida em seu clamor pela vida concreta.

Tudo isso nos permite ver o quão fundamentalmente a autoridade da Igreja é questionada quando se trata de questões de moralidade. Aqueles que negam à Igreja uma competência no ensinamento definitivo nesta área, forçam-na a permanecer em silêncio exatamente ali, onde se encontra em jogo a fronteira entre a verdade e a mentira.

Independentemente deste assunto, em muitos círculos da teologia moral foi apresentada a tese de que a Igreja não tem e não pode ter sua própria moralidade. O argumento era que todas as hipóteses morais teriam seu paralelo em outras religiões e, portanto, não haveria uma natureza cristã. Mas a questão da natureza da moralidade bíblica não é respondida pelo fato de que para cada frase singular em algum lugar da Escritura, podemos encontrar um paralelo em outras religiões. Na verdade, trata-se do conjunto da moralidade bíblica, que, como tal, é novo e distinto de suas partes individuais.

A doutrina moral das Sagradas Escrituras tem a sua forma única de ser predicada em última instância na sua concreção à imagem de Deus, na fé em um Deus que se manifestou a Si mesmo em Jesus Cristo e viveu como ser humano. O Decálogo é uma aplicação para a vida humana da fé bíblica em Deus. A imagem de Deus e da moralidade se pertence uma a outra e é por isso que resulta na mudança particular da atitude cristã em relação ao mundo e à vida humana. Além disso, o cristianismo tem sido descrito desde o início com o termo Hodoš (caminho, em grego, usado no Novo Testamento para discutir um caminho de progresso).

A fé é uma travessia e uma forma de vida. Na Igreja antiga, o catecumenato foi criado como um habitat no qual os aspectos distintos e frescos daquele modo de viver a vida cristã eram ao mesmo tempo praticados e protegidos, contra uma cultura cada vez mais desmoralizada. Acredito que mesmo hoje, algo como estas comunidades de catecumenato sejam necessárias para que a vida cristã possa se afirmar da maneira que lhe é própria.

II.

As reações eclesiais iniciais

(1) O processo há muito preparado e em andamento para a dissolução do conceito cristão de moralidade foi marcado, como tentei demonstrar, pelo radicalismo sem precedentes dos anos 1960. Essa dissolução da autoridade moral do ensino da Igreja devia ter um efeito sobre os diferentes membros da Igreja. No contexto da reunião dos presidentes das conferências episcopais em todo o mundo com o Papa Francisco, a questão da vida sacerdotal, assim como a dos seminários, é de particular interesse. Uma vez que está relacionado ao problema o tema da preparação para o ministério sacerdotal nos seminários, e, existe de fato uma ampla decomposição no que diz respeito à anterior forma de preparação dos candidatos.

Em vários seminários foram estabelecidos grupos homossexuais que agiram mais ou menos abertamente, o que mudou significativamente o clima que se vivia ali. Em um seminário no sul da Alemanha, os candidatos ao sacerdócio e ao ministério leigo de agentes de pastoral (Pastoralreferent) viviam juntos. Nas refeições diárias, os seminaristas e os especialistas em pastoral estavam juntos. Os casados ​​às vezes estavam com suas esposas e filhos; e às vezes com suas namoradas. O clima neste seminário não oferecia o apoio necessário para a preparação adequada para a vocação sacerdotal. A Santa Sé sabia desses problemas sem ser informada com precisão. Como primeiro passo, foi acordada uma visita apostólica para os seminários nos Estados Unidos.

Como os critérios para a seleção e nomeação dos bispos também mudaram depois do Concílio Vaticano II, a relação dos bispos com seus seminários também tornou-se muito diferente. Acima de tudo, a “conciliaridade” foi estabelecida como um critério para a nomeação de novos bispos, o que poderia ser entendido de várias maneiras.

De fato, em muitos lugares entendeu-se que as atitudes conciliares se relacionavam a uma postura crítica ou negativa à tradição que existia até então, e que precisava ser substituída por uma relação nova e radicalmente aberta com o mundo. Um bispo, que já havia sido reitor de um seminário, fez os seminaristas assistirem a filmes pornográficos com a intenção de torná-los resistentes a condutas contrárias à fé.

Havia – e não apenas nos Estados Unidos da América – bispos que individualmente rejeitavam totalmente a tradição católica e buscavam uma nova e moderna “catolicidade” em suas dioceses. Pode valer a pena mencionar que em muitos seminários, os estudantes que os viram lendo meus livros eram considerados inadequados para o sacerdócio. Meus livros estavam escondidos, como se fossem literatura ruim, e eram lidos apenas debaixo da escrivaninha.

A visita apostólica afinal não trouxe novas pistas, aparentemente porque vários poderes juntaram forças para maquiar a verdadeira situação. Uma segunda visita foi ordenada e permitiu novos dados, mas no final tampouco obteve resultado algum. No entanto, desde a década de 1970, a situação nos seminários geralmente melhorou. E, no entanto, apenas casos isolados de um novo fortalecimento das vocações sacerdotais surgiram, posto que a situação em geral havia tomado outro rumo.

(2) A questão da pedofilia, se não me falha a memória, não era crítica até a segunda metade da década de 1980. Entretanto, ele se tornou um assunto público nos Estados Unidos, tanto assim que os bispos foram a Roma para procurar ajuda e que o direito canônico, conforme escrito no novo Código (1983), não parecia suficiente para tomar as medidas necessárias. Na primeira visita, Roma e os canonistas romanos tinham dificuldades com estas preocupações porque, em sua opinião, a suspensão temporária do ministério sacerdotal deveria ser suficiente para gerar purificação e esclarecimento. Isto não podia ser aceito pelos bispos americanos, porque assim os sacerdotes permaneciam a serviço do bispo e, portanto, seguiam diretamente associados a ele. Lentamente, foi tomando forma uma renovação e um aprofundamento na lei criminal do novo Código, construída deliberadamente e com ligeireza.

Além disso e no entanto, havia um problema fundamental na percepção do direito penal. Apenas o chamado “garantismo” (uma espécie de protecionismo processual ao réu) era considerado uma postura “conciliar”. Isso significa que os direitos do acusado devem ser garantidos, acima de tudo, até o ponto em que qualquer tipo de condenação fosse impossibilitada. Como um contrapeso para as opções de defesa disponíveis para os teólogos acusados ​​e muitas vezes inadequadas, o direito de defesa dos mesmos usando o “garantismo” estendeu-se a tal ponto que era quase impossível uma condenação.

Permitam-me um breve excurso neste momento. À luz da escalada da conduta pedófila, uma palavra de Jesus novamente nos interpela: ” Se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, seria melhor que fosse lançado no mar com uma grande pedra amarrada no pescoço” (Mc 9,42).

A palavra pequenino, na língua de Jesus, significava aqueles crentes comuns que podem ver sua fé confundida pela arrogância intelectual daqueles que acreditam ser inteligentes. Então, aqui Jesus protege o depósito da fé com uma ameaça ou punição enfática para aqueles que prejudicam estas pessoas.

O uso moderno da frase não está em si mesmo errado, mas não deve obscurecer o significado original. Fica claro, contra qualquer garantismo, que não apenas o direito do acusado é importante e requer uma garantia. Grandes bens como a fé são igualmente importantes.

Assim, uma lei canônica equilibrada, que corresponda à totalidade da mensagem de Jesus, não apenas deve fornecer uma garantia para o acusado, para quem o respeito é um bem lícito, mas também deve proteger a fé que também é um importante e lícito bem. Uma lei canônica adequadamente formada deve então conter uma dupla garantia: a proteção legal do acusado e a proteção legal da propriedade que está em jogo. Se hoje esta concepção intrinsecamente clara é apresentada, ela geralmente cai em ouvidos surdos quando se trata da questão da proteção da fé como um bem legal. Na consciência geral da lei, a fé não parece mais ter o grau de um bem que requer proteção. Esta é uma situação alarmante que os pastores da Igreja devem considerar e levar a sério.

Agora eu gostaria de acrescentar, às breves notas sobre a situação da formação sacerdotal na época da crise, algumas observações sobre o desenvolvimento do direito canônico nesta matéria.

Em princípio, a Congregação para o Clero é responsável por lidar com crimes cometidos por padres, mas dado que o “garantismo” dominava amplamente a situação daquela época, eu concordei com o Papa João Paulo II que era apropriado designar essas ofensas à Congregação para a Doutrina da Fé, sob o título de “Delicta maiora contra fidem” (NdT: Delitos graves contra a fé).

Isso possibilitou a imposição da pena máxima, ou seja, a expulsão do estado clerical, que não poderia ter sido imposta sob outras disposições legais. Este não foi um truque para impor a pena máxima, mas uma consequência da importância da do bem que é a fé para a Igreja. De fato, é importante notar que uma tamanha má conduta deste tipo por parte de um clérigo, acaba, em última instância, prejudicando a fé.

Onde a fé não determina mais as ações do homem tais ofensas se tornam possíveis.

A severidade da pena, no entanto, também pressupõe uma prova clara da ofensa: este aspecto da garantia continua em vigor.

Em outras palavras, para impor a pena máxima legalmente, é necessário um processo criminal genuíno, mas ambas as dioceses e a Santa Sé estão sobrecarregadas por esta exigência. Portanto, formulamos um nível mínimo de procedimentos criminais e deixamos aberta a possibilidade de que a própria Santa Sé assuma o julgamento quando a diocese ou a administração metropolitana não possam fazê-lo. Em cada caso, o julgamento deve ser revisado pela Congregação para a Doutrina da Fé para garantir os direitos do acusado. Finalmente, na quarta feria (N.dT. a assembleia ou reunião geral dos membros desta Congregação da Cúria em que são discutidos os diversos casos em andamento), estabelecemos uma instância de recurso para oferecer a possibilidade de o acusado apelar.

Já que tudo isso ultrapassou as capacidades concretas da Congregação para a Doutrina da Fé e não havia outra alternativa mais que enfrentar os longos atrasos, devido à natureza peculiar do assunto, o Papa Francisco decidiu então realizar mais reformas.

III.

(1) O que deve ser feito? Talvez devêssemos criar outra Igreja para que as coisas funcionem? Bem, essa experiência já foi feita e já falhou. Somente a obediência e o amor a nosso Senhor Jesus Cristo pode nos mostrar o caminho, então primeiramente devemos tentar entender de novo e de dentro (de nós mesmos) o que o Senhor quer e quis de nós.

Em primeiro lugar, gostaria de sugerir o seguinte: se realmente queremos resumir muito brevemente o conteúdo da fé, tal como está na Bíblia, teríamos que fazê-lo dizendo que o Senhor começou uma narrativa de amor com as pessoas e quer abraçar toda a criação nesta narrativa. A maneira de lutar contra o mal que nos ameaça e ameaça o mundo todo, só pode residir no nosso ingresso neste amor em última instância. Esta é a verdadeira força contra o mal, já que o poder do mal surge da nossa recusa em amar a Deus. Quem se entrega ao amor de Deus é redimido. Nossa realidade de não-redimidos é consequência de nossa incapacidade de amar a Deus. Aprender a amar a Deus é, portanto, o caminho da redenção humana.

Vamos tentar desenvolver um pouco mais este conteúdo essencial da revelação de Deus. Podemos assim dizer que o primeiro dom fundamental que a fé nos oferece é a certeza de que Deus existe. Um mundo sem Deus só pode ser um mundo sem significado. Caso contrário, de onde tudo viria? Em todo caso, não haveria um propósito espiritual. De alguma forma, simplesmente está lá e não tem propósito ou significado algum. Então não há padrões de bem ou mal, e somente o que é mais forte do que qualquer outra coisa que se possa afirmar e então o poder se torna o único princípio. A verdade não conta, simplesmente não existe. Somente se as coisas tiverem uma razão espiritual, elas têm uma intenção e são concebidas. Somente se existe um Deus Criador que é bom e que quer o bem, a vida do homem pode então fazer sentido.

Existir um Deus que seja o criador e a medida de todas as coisas é primeiro e acima de tudo uma necessidade, mas um Deus que não se expressa em nada aquilo que é, que não se dá a conhecer, permaneceria como uma presunção e, em consequência, não poderia determinar a forma [Gestalt] do nosso viver. Para que Deus seja realmente Deus nesta criação deliberada, temos que olhar para Ele para que ele se expresse de alguma forma. Ele fez de muitas maneiras, mas decisivamente na vocação de Abraão e deu às pessoas que procuravam a Deus a orientação que nos leva além de toda expectativa: o próprio Deus se torna criatura, falando como um homem conosco, seres humanos.

Nesse sentido, a frase “Deus é”, torna-se ao final uma mensagem verdadeiramente alegre, precisamente porque Ele é mais do que intelecto porque cria – e é – o amor para que mais uma vez as pessoas tenham consciência de que esta é a primeira e mais fundamental tarefa confiada a nós pelo Senhor.

Uma sociedade sem Deus – uma sociedade que não o conhece e o trata como inexistente – é uma sociedade que perde sua medida. Em nossos dias, a frase da morte de Deus foi acunhada. Quando Deus morre em uma sociedade, nos é dito, torna-se livre. Na realidade, a morte de Deus em uma sociedade também significa o fim da liberdade porque o que morre é o propósito que provê orientação, já que desaparece a bússola que nos indica a direção certa e que nos ensina a distinguir o bem do mal. A sociedade ocidental é uma sociedade na qual Deus está ausente na esfera pública e não tem nada para oferecer a ela. E essa é a razão pela qual a sociedade perde cada vez mais sua noção de humanidade. Em pontos individuais, de repente parece que o que é ruim e destrói o homem se tornou uma questão de rotina.

Esse é o caso da pedofilia. Admitiu-se há pouco tempo como algo legítimo, mas se espalhou mais e mais. E agora percebemos com surpresa que as coisas que estão acontecendo com nossas crianças e jovens ameaçam destruí-las. O fato de que isso também pode ser estendido na Igreja e entre os sacerdotes é algo que deve nos interpelar de maneira particular.

Por que a pedofilia atingiu tais proporções? No final, a razão é a ausência de Deus. Nós cristãos e sacerdotes também preferimos não falar de Deus porque esse discurso não parece ser prático. Após a convulsão da Segunda Guerra Mundial, nós na Alemanha ainda tínhamos expressamente em nossa Constituição que estávamos sob a responsabilidade de Deus como um princípio orientador. Meio século depois, já não era possível incluir a responsabilidade para com Deus como um princípio orientador na Constituição Europeia. Deus é visto como a preocupação partidária de um pequeno grupo e não pode mais ser um princípio orientador para a comunidade como um todo. Esta decisão é refletida na situação no Ocidente, onde Deus se tornou um assunto particular, destinado a uma pequena minoria.

Uma tarefa primordial, que deve resultar das convulsões morais de nosso tempo, é que novamente comecemos a viver para Deus e sob Ele. Acima de tudo, temos que aprender mais uma vez a reconhecer Deus como a base de nossa vida. Em vez de deixá-lo de lado como se fosse uma frase ineficaz. Jamais esquecerei o aviso do grande teólogo Hans Urs von Balthasar que uma vez me escreveu em um de seus cartões postais. “Não pressuponha o Deus trino: Pai, Filho e Espírito Santo, apresente-o!”

De fato, na teologia, Deus é sempre tomado como uma questão de rotina, mas na vida concreta não a pessoa não se relaciona com Ele. O tema de Deus parece tão irreal, tão alheio às coisas que nos preocupam e entretanto, tudo se torna diferente quando nós não pressupomos mas apresentamos Deus aos demais. Não deixando para trás como uma moldura, mas reconhecendo-o como o centro de nossos pensamentos, palavras e ações.

(2) Deus se tornou homem para nós. O homem como sua criatura está tão perto de seu coração que se uniu a si mesmo e, assim, entrou na história humana de maneira muito prática. Ele fala conosco, vive conosco, sofre conosco e assumiu a morte por nós. Falamos sobre isso em detalhes em teologia, com palavras e pensamentos aprendidos, mas é precisamente assim que corremos o risco de nos tornarmos professores da fé, em vez de sermos renovados e transformados em mestres pela fé.

Considere isso com relação à questão central, a celebração da Santa Eucaristia. Nossa forma de lidar com a Eucaristia só pode gerar preocupação. O Concílio Vaticano II concentrou-se justamente em devolver este sacramento da presença do corpo e do sangue de Cristo, da presença da sua pessoa, da sua paixão, morte e ressurreição, ao centro da vida cristã e à própria existência da Igreja. Em parte, isso realmente aconteceu e devemos ser gratos ao Senhor por isso.

E ainda assim uma atitude muito diferente prevalece. O que predomina não é uma nova reverência pela presença da morte e ressurreição de Cristo, mas uma maneira de lidar com Ele que destrói a grandeza do Mistério. A queda na participação das celebrações eucarísticas dominicais mostra quão pouco os cristãos de hoje sabem apreciar a grandeza do dom que consiste em sua verdadeira Presença. A Eucaristia tornou-se um mero gesto cerimonial quando se toma por parâmetro que as boas maneiras exigem que que esta seja oferecida em celebrações familiares ou às vezes em casamentos e funerais a todos os convidados, simplesmente por motivos familiares.

A maneira pela qual as pessoas simplesmente recebem o Santíssimo Sacramento na comunhão como algo rotineiro mostra que muitos o veem como um gesto puramente cerimonial. Portanto, quando você pensa sobre a ação que é necessária em primeiro lugar, é bastante óbvio que não precisamos de outra Igreja com um design próprio. Em vez disso, precisa-se, em primeiro lugar, alcançar a renovação da fé na realidade de que Jesus Cristo realmente nos é dado no Santíssimo Sacramento.

Em conversas com vítimas de pedofilia, fiquei muito consciente desse primeiro e fundamental requisito.

Uma jovem que tinha sido acólita me disse que o capelão, seu superior no culto do altar, sempre a introduzia ao abuso sexual com estas palavras: “Este é o meu corpo que será entregue por ti”.

É óbvio que esta mulher não pode mais ouvir as palavras da consagração sem experimentar novamente a terrível angústia do abuso. Sim, temos que implorar ao Senhor urgentemente pelo seu perdão, mas antes de tudo temos que jurar por Ele e pedir a Ele que nos ensine novamente a entender a grandeza de Seu sofrimento e Seu sacrifício. E nós temos que fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para proteger o dom da Santa Eucaristia do abuso.

(3) E finalmente, está o Mistério da Igreja. A frase com que Romano Guardini, há quase 100 anos, expressou a esperança alegre dele, e de tantos outros, permanece inesquecível: “Um evento de importância incalculável começou, a Igreja está despertando nas almas (do povo) “

Ele quis dizer que a igreja não foi experimentada ou vista simplesmente como um sistema externo que entrou em nossas vidas, como uma espécie de autoridade, mas tinha começado a ser percebido como presente nos corações das pessoas, não como algo meramente externo, mas que nos moveu internamente. Quase 50 anos depois, a repensar esse processo e ver o que vem acontecendo, estou tentado a reverter a frase: “A Igreja está morrendo nas almas (das pessoas).”

De fato, hoje a Igreja é amplamente vista apenas como um tipo de aparato político. Fala-se dela quase que exclusivamente em categorias políticas e isso se aplica até mesmo a bispos que formulam a sua concepção da Igreja do amanhã quase exclusivamente em termos políticos. A crise, causada por muitos casos de abuso de clérigos, nos faz olhar para a Igreja como algo quase inaceitável que nós temos que tomar em nossas mãos e redesenhar. Mas uma Igreja que se autoconstrói não pode constituir esperança alguma.

O próprio Jesus comparou a Igreja a uma rede de pesca na qual o próprio Deus separa os bons peixes dos maus. Há também uma parábola da Igreja como um campo onde o trigo cresce que o próprio Deus semeou com a erva daninha que “um inimigo” secretamente lançou. Na verdade, a erva daninha no campo de Deus, a Igreja, é agora demasiado visível e os maus peixes na rede também mostram sua força. No entanto, o campo ainda é o campo de Deus e a rede é a rede de Deus. E em todos os tempos não houve apenas má erva daninha ou peixes ruins, mas também as colheitas de Deus e a boa pesca. Proclamar ambos com ênfase e da mesma forma não só é uma falsa apologética, mas um serviço necessário à Verdade.

Neste contexto, é necessário se referir a um texto importante no Apocalipse de João. O diabo é identificado como o acusador que acusa nossos irmãos diante de Deus dia e noite. (Apocalipse 12:10). O Apocalipse, em seguida, leva um pensamento que está no centro da narrativa no livro de Jó (Jó 1 e 2, 10; 42: 7-16). Ali se diz que o diabo procurou mostrar que a retidão de vida de Jó perante Deus era meramente externa. E é exatamente isso que o Apocalipse tem a dizer: o diabo quer provar que não há pessoas corretas, que sua correção só se mostra externamente. Se alguém pudesse se aproximar, a aparência da justiça cairia rapidamente.

A narrativa começa com uma disputa entre Deus e o diabo, na qual Deus se referiu a Jó como um homem verdadeiramente justo. Agora ele será usado como um exemplo para provar quem está certo. O diabo pede que todas as suas posses sejam removidas para ver que nada resta de sua piedade. Deus permite que ele faça isso, depois do qual Jó age positivamente. Então o demônio pressiona e diz: “Pele por pele! Sim, tudo que o homem tem dará por sua vida. Agora, porém, estende a tua mão e toca o seu osso e a sua carne, e verás se não te amaldiçoa na tua face “(Jó 2,4f).

Então Deus dá ao demônio um segundo round. Ele também toca a pele de Jó e só lhe é negado matá-lo. Para os cristãos, é claro que este trabalho, que se coloca diante de Deus como um exemplo para toda a humanidade, é Jesus Cristo. No Apocalipse, o drama da humanidade nos é apresentado em toda a sua amplitude.

O Deus Criador é confrontado com o diabo que fala a toda a humanidade e a toda a criação. Ele fala não só a Deus, mas acima de tudo ao povo: Veja o que este Deus fez. Supostamente uma boa criação. Na realidade, Ele é cheio de miséria e desprazer. O desânimo da criação é, na realidade, o desprezo de Deus. Ele quer provar que o próprio Deus não é bom e afastar-nos dEle.

A oportunidade da que o Apocalipse nos está falando aqui é óbvia. Hoje, a acusação contra Deus é, acima de tudo, desprezo de Sua Igreja como algo maligno em sua totalidade e, portanto, nos desencoraja dela. A idéia de uma Igreja melhor, feita por nós mesmos, é na verdade uma proposta do diabo, com a qual ele quer nos afastar do Deus vivo usando uma lógica enganosa em que podemos facilmente cair. Não, ainda hoje a Igreja não é feita apenas de peixes ruins e ervas daninhas. A Igreja de Deus também existe hoje e hoje é o mesmo instrumento pelo qual Deus nos salva.

É muito importante opor com toda a verdade as mentiras e meias-verdades do diabo: sim, há pecado e mal na Igreja, mas ainda hoje há a Santa Igreja, que é indestrutível. Também hoje há muitas pessoas que humildemente acreditam, sofrem e amam, em quem o verdadeiro Deus, o Deus amoroso, se mostra a nós. Deus também tem Suas testemunhas (“mártires”) no mundo hoje. Nós apenas precisamos estar atentos para conseguir vê-los e ouvi-los.

A palavra mártir é tirada da lei processual. No julgamento contra o diabo, Jesus Cristo é o primeiro e verdadeiro testemunho de Deus, o primeiro mártir, que desde então tem sido seguido por inúmeros outros.

Hoje, a Igreja é mais do que nunca uma Igreja dos mártires e, portanto, um testemunho do Deus vivo. Se olharmos em volta e escutarmos com um coração atento, hoje poderemos encontrar testemunhas por toda parte, especialmente entre as pessoas comuns, mas também nas altas fileiras da Igreja, que defendem a Deus com suas vidas e seus sofrimentos. É uma inércia do coração que nos leva a não querer reconhecê-los. Uma das grandes e essenciais tarefas de nossa evangelização é, na medida do possível, estabelecer habitats de fé e, acima de tudo, encontrá-los e reconhecê-los.

Eu moro em uma casa, em uma pequena comunidade de pessoas que descobrem repetidamente esses testemunhos do Deus vivo na vida cotidiana, e que alegremente me dizem isso. Ver e encontrar a Igreja viva é uma tarefa maravilhosa que nos fortalece e que, uma e outra vez, nos faz felizes na nossa fé.

Ao final de minhas reflexões, gostaria de agradecer ao Papa Francisco por tudo que ele faz para nos mostrar-nos sempre a luz de Deus que, mesmo nos dias de hoje, não desapareceu.

Obrigado Santo Padre!

Bento XVI

Por que os ultrajovens ainda vão destruir o país


Por Daniel Scott

Há alguns dias, a revista Época publicou uma edição que viralizou nas redes sociais. Centrando no tema dos ultrajovens, o grande destaque foi a capa criativa. Apesar de terem feito um bom trabalho com a ilustração, o artigo em destaque não foi à altura. Mas traz pontos interessantes, a partir dos quais é possível fazer algumas reflexões:

Enquanto países desenvolvidos estão focados em ensinar aos seus jovens inteligência artificial, machine learning, big data e outros assuntos pertinentes, por aqui ainda estamos presos em discussões que não têm relevância econômica alguma, como identidade de gênero ou saber se mulher branca usar turbante é apropriação cultural. São discussões que, embora sejam consideráveis, simplesmente não ajudam a desenvolver um país onde 70% da população é analfabeta funcional.

O resultado é que, pela ignorância gerada, nossos jovens crescem acreditando que salário é uma benevolência do empregador e não uma função da produtividade e da sua disposição de assumir riscos.

Com isso, creem que o fato de não conseguirem comprar coisas é porque as empresas não querem dar remunerações altas, quando a realidade é que nossos jovens são menos capacitados que beagles de laboratório.

Basta ver os cursos universitários mais concorridos nos EUA ou Europa e aqui no Brasil. Por lá é engenharia, business, management ou tecnologia. Já por aqui são cursos de humanas.

É claro, o adolescente que se formou no ensino médio sem saber a tabuada nem conseguir interpretar um artigo acadêmico não tem outra chance na vida a não ser fazer vestibular de Ciências Sociais ou Pedagogia na Uniskina ou qualquer outra coisa do tipo.

Não que não sejam profissões dignas, mas não geram valor econômico. Sobretudo por estarmos já saturados de profissionais desse mesmo perfil. Esses que, como num magnífico esquema de pirâmide, vão trabalhar ensinando mais jovens a entrarem nessas profissões e perpetuar o ciclo. Enfim nos tornaremos o país que não produz tecnologia, mas está repleto de sociólogos e pedagogos.

Quanto custa o outfit dos ultrajovens?

Mas não precisa nem ir tão longe para entender a idiotização dessa geração. Basta ver o vídeo que viralizou entre esses ultrajovens abastados nessa semana.

Intitulado “Quanto custa o outfit“, o vídeo entrevista jovens que falam sobre o valor das suas peças de vestuário. Entre cintos feitos com fitas daquelas de cena de crime e relógios que valem mais que um carro, adolescentes glorificam a ostentação, mesmo sem possuírem um capital cultural compatível ou sequer um trabalho que sustente esse estilo de vida. São jovens que não sabem conjugar o verbo “variar”, mas usam pulseiras de 4 mil reais para ir à balada.

Paralelamente, estamos na rabeira mundial do ranking de P&D, enquanto nossos melhores engenheiros, administradores e profissionais de tecnologia estão se mandando para fora em ritmo acelerado. Todos os dias, perdemos milhares dos nossos “cérebros”.

Veja, é uma equação simples: o tempo de um aluno é limitado. Quanto mais horas ele passa aprendendo sobre diversidade cultural, menos horas ele passa aprendendo sobre matemática, literatura, física, etc.

Como consequência, quando chegam no mercado de trabalho, os jovens descobrem que o resto do mundo não importa os dois maiores produtos brasileiros: textão no Facebook e vídeos motivacionais.

Ninguém lá fora está interessado em debater se devemos usar “x” no final de palavras com dois gêneros, muito menos em acampar no frio para apoiar criminosos condenados.

Lá no primeiro mundo, as pessoas só pensam em uma coisa: produzir. Produção gera riqueza, gera igualdade, reduz a violência e, em última instância, traz mais diversidade social do que de fato ensinar diversidade nas escolas.

Já por aqui, a nova geração estará preocupada em tirar selfies e engajar em lutas contra os canudinhos, enquanto espera que políticos populistas a sustente por toda vida. E assim seguiremos, com nossos jovens perpetuando eleições de Lulas, Bolsonaros, Dilmas e Temeres (sim, vice também é eleito) ainda por muitas décadas.

Conflito de interesse ideológico


Por Raphael Câmara Medeiros Parente, retirado de Gazeta do Povo.

No momento polarizado ideologicamente em que o mundo se encontra, não é de causar espanto que isso também se reflita no mundo científico. As pessoas tendem a se preocupar somente com situações que envolvam aspectos econômicos, tais como: financiamentos de laboratórios ou trabalho para algum ente interessado. Mas existem outros importantes aspectos que também podem influenciar, dentre esses, o ideológico.

Conflito de interesse, de acordo com a definição clássica de Thompson, é um conjunto de condições nas quais o julgamento de um profissional a respeito de um interesse primário tende a ser influenciado indevidamente por um interesse secundário. Dependendo da área temática, talvez esse seja um problema maior do que o conflito econômico. Esta questão é aflorada em pesquisas que chamam interesse da mídia, tais como: agrotóxicos (como imaginar alimentar sete bilhões de pessoas sem eles?), mudanças climáticas, violência (estudos que relatam um suposto genocídio de pretos jovens e pobres sem nem sequer citarem que o mesmo estrato também é o que mais comete crimes violentos), dentre muitos outros.

Seria inimaginável uma revista científica conceituada aceitar para publicação um estudo que não mostre os motivos óbvios para estes achados, salvo haja um “afrouxamento” no rigor da submissão pelo conflito ideológico favorável de revisores e editores. Por outro lado, é muito mais difícil ter aceito um trabalho se ele for contra o viés ideológico dos editores por melhor que seja o trabalho. Como sou médico ginecologista-obstetra, conheço bastante os problemas ideológicos envolvidos em pesquisas relacionadas ao aborto e à via de parto.

É notória uma dominância de pensamento de esquerda e progressista nas universidades públicas brasileiras. E estou absolutamente convicto de que este pensamento muitas vezes afeta todas as etapas das pesquisas que envolvam estes temas. E é importante que encontremos formas de mitigar este problema.

É muito difícil ter aceito um trabalho se ele for contra o viés ideológico dos editores por melhor que seja o trabalho

Participei recentemente da audiência pública mais concorrida da história do STF que versou sobre a liberação do aborto numa proporção aproximada de dois expositores favoráveis à liberação para um contrário. Em mínimos 20 minutos, consegui mostrar diversas mentiras usadas pelos defensores da liberação do aborto que estão disponíveis em diversos vídeos com minha apresentação no STF que viralizaram, além de fraquezas gigantescas de estudos brasileiros sobre o tema que não são mostradas.

É fundamental que, doravante, haja um escrutínio com lupa destes estudos e das verbas públicas que os financiaram. Estudos esses que norteiam impressionantemente a discussão sobre aborto no Brasil. Eu me coloquei à disposição para ajudar. Chama extrema atenção como os estudos publicados em revistas científicas brasileiras que embasam e regem a discussão sobre o aborto são sofríveis do ponto de vista metodológico e, com resultados, ao meu ver, muitas das vezes, absolutamente descartáveis. Esta mesma situação ocorre em estudos relacionados à via de parto que quase que, invariavelmente, concluem que a culpa por tantas cesarianas é dos obstetras, colocando-nos como vilões e ignorando as outras dezenas de variáveis que impactam este desfecho, sendo a principal a saúde pública brasileira sofrível em todos os níveis.

O que causa mais preocupação e deveria chamar a atenção da mídia e da sociedade é que estas pesquisas custam milhares e, frequentemente, milhões de reais dos nossos cofres públicos e para nada servem seus resultados que não seja o de obnubilar nossa visão para uma real solução dos problemas. No caso do aborto, podemos citar os números completamente inventados que surgiram de publicações científicas e inundaram as matérias jornalísticas e, temos como exemplos, o número inventado de 11.000 mortes maternas por aborto ao ano e de 1,1 milhão de abortos clandestinos anuais que foram divulgados por uma revista de circulação nacional hebdomadária em editorial recente de junho de 2018 escrito por renomado professor de urologia, quando os dados oficiais mostram menos de 70 mortes anuais causadas por qualquer tipo de aborto e cerca de 100 a 200 mil abortos de qualquer espécie (legal, ilegal e natural) por ano.

Em questões de via de parto, os grupos que mais publicam no Brasil sobre o tema geralmente concluem que a taxa aumentada de cesarianas é uma das maiores causas da mortalidade materna vergonhosa do Brasil culpando os obstetras por isso. Em texto recente n’O Globo, mostrei baseado em dados oficiais que a mortalidade materna galopante na cidade do Rio de Janeiro estava correlacionada com a falta de obstetras e associada até a uma diminuição de cesarianas.

Como de nada serve detectar o problema sem sugerir soluções, proponho o início de um debate em que todos os aspectos relacionados ao problema sejam revisados. A responsabilidade de lidar com os conflitos de interesses na publicação científica é dividida entre autores, revisores, editores e leitores. Além disso, quem participa da elaboração de editais, liberação de verbas para pesquisa e gestores também devem estar atentos. Proponho que as pesquisas sejam categorizadas por possibilidade de conflito ideológico. Caso sejam passíveis, diversos passos devem ser seguidos. Não há de se imaginar que a caracterização da morfologia da orelha de um morcego seja sujeita a este problema. Portanto, foquemos naqueles que são suscetíveis.

Os editais para liberação de verbas para projetos devem exigir que, em pesquisas sensíveis a este problema, seja necessária a participação de pesquisadores de diferentes matizes ideológicas na mesma pesquisa ou liberação para grupos de pensamentos dissonantes. Há pesquisas sobre via de parto com todos os diversos pesquisadores tendo exatamente a mesma visão de mundo, a chamada “bolha” em nossos tempos maniqueístas. O que se nota é que, muitas das vezes, os grupos vencedores dos editais são sempre os mesmos e isso desestimula surgimento de novos grupos de pesquisa que em muito poderiam enriquecer o debate.

Necessário também que os estudos não sejam enviados para periódicos da mesma instituição de origem dos pesquisadores para que haja uma avaliação criteriosa de possíveis problemas metodológicos. Por mais que seja sério o processo de submissão, há uma possibilidade de conflito. Fundamental que haja, assim como existe no conflito econômico, a obrigatoriedade de o pesquisador declarar seu “lado”. Exemplo, em pesquisas sobre o aborto, deve estar clara sua posição contrária ou favorável à liberação e se recebe dinheiro de alguma instituição defensora ou contrária à liberação. O mesmo deve ocorrer na avaliação dos artigos para publicação, devendo ser ele avaliado por editores e revisores de ideologias diferentes para evitar o aceite de um artigo sem merecimento e a rejeição de um ótimo estudo, mas com o “pecado” de não ser do agrado do pensamento de editores e revisores. Todos sabemos que isso existe. É hora de resolver!

Sem ser minha intenção esgotar este tema em poucas linhas, clamo pelo início deste debate. Em muito poderá acrescentar para a melhora da qualidade de nossas pesquisas e publicações e para um melhor gasto de nosso já parco financiamento.

Raphael Câmara Medeiros Parente, especialista em Gestão em Saúde, mestre em Saúde Pública e doutor em Ginecologia, é médico ginecologista da UFRJ.

finis est primus in intentione, sed ultimus in ordine executioni s – O fim é o primeiro no pensamento e o último na execução


Por Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria

Peço que rezem pelas ordenações sacerdotais e diaconais que ocorrerão no IBP no sábado que vem, dia 7. Haverá dois padres e dois diáconos.

Começamos hoje o tempo do Advento, tempo de preparação para o Natal e tempo particular de conversão, de mudança de vida, de bons propósitos e de fazer uma boa confissão, para que possamos caminhar de dia, honestamente, revestidos de Nosso Senhor Jesus Cristo. É tempo de penitência, com o roxo dos paramentos, com o silêncio do órgão que não toca sozinho, com a obrigatória ausência de flores, com o Glória que é omitido.

“Irmãos (…) é já hora de nos levantarmos do sono. (…) Deixemos, pois, as obras das trevas, e revistamo-nos das armas da luz.”

Caros católicos, começamos o novo ano litúrgico como terminamos o último, com o Evangelho que nos fala do final dos tempos, da vinda gloriosa de Cristo como juiz universal. É fácil compreender porque terminamos assim o ano litúrgico no domingo passado: terminamos o ano litúrgico assim porque assim terminará esse mundo. Todavia, porque começar o ano litúrgico pelo fim? A resposta é simples. A primeira coisa que um ser inteligente, como nós seres humanos, concebe é o seu objetivo, a sua finalidade. Antes de agir, antes de pensar em outra coisa concebemos o objetivo, a finalidade da nossa ação. Somente depois de concebermos o nosso fim é que estabelecemos os meios para buscar o fim. (O fim é o primeiro no pensamento e o último na execução: finis est primus in intentione, sed ultimus in ordine executionis) Por exemplo, primeiro pensamos: meu objetivo é ir a Roma. Em seguida, pensamos nos meios adequados para chegar até lá. Dessa forma, a Igreja coloca logo no início do ano litúrgico o nosso fim, o juízo, para que possamos agir sempre tendo em vista esse juízo e para que busquemos a nossa salvação, para que possamos ser julgados dignos de alcançar o reino de Deus pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Desde o início do ano litúrgico, desde o início de nossas vidas, devemos agir para alcançar o céu, para sermos julgados justos.

Portanto, o que importa é a nossa salvação. É a única coisa que realmente importa. Vivemos, porém, em uma época de grande crise na sociedade e também de uma grande crise na Igreja: crise de fé, crise moral, crise litúrgica. Tal crise resulta na descristianização quase completa dos povos. E diante de tamanha crise, por fraqueza na fé, por falta de esperança e desânimo, surgem algumas falsas soluções, que agravam os problemas, que dificultam a nossa salvação. Diante da crise, é preciso colocar em prática a verdadeira solução. Vejamos, então, quais são algumas dessas falsas soluções, para evitá-las e vejamos qual é a verdadeira solução para colocá-la em prática.

A primeira falsa solução é falsa porque vai contra a fé. Ela consiste em aderir a falsas revelações, a revelações não aprovadas pela Igreja. Muitas dessas aparições são contrárias à fé, propondo, por exemplo, a igualdade de todas as religiões. Algumas são também cismáticas, com a nomeação direta de um novo Papa em substituição ao Papa que se encontra no Vaticano. Algumas outras aparições são simplesmente bobas e sem substância. Diante da crise, da fé que começa a fraquejar, a pessoa recorre a fenômenos extraordinários, a soluções instantâneas, a falsos profetas. Muitas dessas falsas aparições têm justamente um certo caráter conservador, com uma liturgia mais digna, com uma moral mais séria. Porém, nem tudo o que é conservador é bom. Não pode ser uma verdadeira solução aquela que se opõe à fé ou a fragiliza. A primeira falsa solução são as falsas aparições ou os falsos profetas que existem e são muitos em nossos dias.

A segunda falsa solução diante dos males consiste em uma atenção excessiva ao mal, justamente. Passa-se, então, a estudar e a considerar unicamente o demônio e sua ação no mundo, passa-se a considerar a maçonaria e sua atuação, etc. Ou, então, passa-se a aguardar o fim do mundo como iminente, passa-se a se preocupar excessivamente para saber se estamos no fim dos tempos ou não. É evidente que é necessário conhecer o demônio e sua ação, para nos defendermos e não cairmos em tentação. É evidente que é necessário conhecer a atuação da maçonaria na história e sua condenação constante pelos Papa até os dias de hoje, dada a incompatibilidade total de princípios da Igreja e da maçonaria. É evidente que é bom conhecer os sinais dos fins dos tempos, embora não possamos saber se esses sinais anunciam o fim dos tempos ou se são uma prefiguração do fim dos tempos, pois NS diz que ninguém sabe a hora em que Ele virá. Todavia, caros católicos, embora seja bom e necessário conhecer tudo isso, não podemos nos limitar a isso, pois isso claramente não é o mais importante: o mais importante é união com Nosso Senhor Jesus Cristo. Apegar-se excessivamente a essas coisas tende a nos tirar o ânimo, tende a nos levar ao desespero, tende a nos paralisar. Esse apego excessivo tende a nos fazer esquecer, na prática, que Deus é o mestre da história. Assim, ocupados excessivamente com o mal e suas causas, deixaremos de fazer o bem que podemos e devemos fazer, mesmo com a crise que vivemos.

Outra falsa solução consiste em se limitar a coisas polêmicas de doutrina e de liturgia ou em preocupar-se demasiadamente com o que dizem os outros. É evidente que devemos ter um conhecimento dessas coisas, um conhecimento, porém, prudente e sóbrio, em conformidade com o nosso estado. Não devemos nos preocupar excessivamente com o que diz tal ou tal pessoa, por mais que importante que seja, ao ponto de nos paralisar ou de nos fazer desesperar, quando ela diz algo imprudente ou incorreto. Não seremos julgados pelo que dizem os outros, mas pela nossa fé e pela nossa caridade. Não seremos tampouco julgados simplesmente pelo conhecimento de questões polêmicas e complexas, mas pela fé naquilo que Deus nos revelou e pelas obras correspondentes a essa fé.

Outra falsa solução consistiria em buscar a solução em dons e carismas extraordinários ou no sentimentalismo. Erro, infelizmente, bastante comum, que coloca a união com Deus onde ela não está. A união com Deus, a fé e a caridade não são sentimentos. A fé é a adesão de nossa inteligência às verdades reveladas por Deus e a caridade é colocar em prática os mandamentos. Os dons e carismas não indicam santidade e não devem ser buscados. O Padre Royo Marín, grande teólogo, diz: “seria temerário desejar ou pedir a Deus essas graças gratis datae (carismáticas), uma vez que não são necessárias nem para a salvação nem para a santificação e requerem – muitas delas ao menos – uma intervenção milagrosa de Deus. Vale mais um pequeno ato de amor a Deus que ressuscitar um morto.” (Royo Marín, Teologia de la Perfección Cristiana, p. 888). E como não se deve desejar ou buscar esse tipo de graças, o resultado, diz o Padre Jordan Aumann, pode ser esse: “uma pessoa pode ficar sob o poder do demônio em razão de um desejo descontrolado de experimentar fenômenos místicos extraordinários ou graças carismáticas.” (Spiritual Theology, p. 411). Portanto, o sentimentalismo, ou a busca por dons extraordinários também é uma falsa solução.

Outras duas soluções insuficientes são o apostolado e o estudo da doutrina da fé e da moral quando se fazem independentemente de uma vida interior sólida e com espírito demasiado natural, como diz o Padre Garrigou-Lagrange (De sanctificatione Sacerdotum, pp. 5 e ss.).

Caros católicos, como podemos constatar, a verdadeira solução diante da crise consiste em buscar a santidade, em buscá-la com verdadeira determinação. A verdadeira santidade não consiste em penitências, não consiste em certas orações ou práticas de piedade, não consiste em simplesmente conhecer a doutrina. É óbvio que a santidade supõe orações, supõe práticas de piedade, supõe penitências e supõe o conhecimento da doutrina conforme o nosso estado, mas ela não se resume a isso. A santidade consiste na perfeição da caridade, na nossa união com Deus, na prática de seus mandamentos.

Resumidamente, essa santidade consiste, de um lado, na negação de nossa vontade própria. Nosso Senhor diz: aquele que quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. E no Pai Nosso rezamos “seja feita a vossa vontade”. Trata-se, portanto, de conformar inteiramente nossa vontade com a vontade de Deus, infinitamente bom. Além da negação de si mesmo, essa santidade consiste, por outro lado, também em um espírito de oração, de união constante com Deus, que só pode vir da oração mental, quer dizer da meditação católica. Quem quer ser realmente santo deve parar alguns minutos por dia e considerar uma verdade sobrenatural, uma virtude, um exemplo de Cristo, de Nossa Senhora ou dos santos e procurar adequar sua vida a essa verdade, a essa virtude, a esse exemplo, avaliando como tem se comportado até aqui, considerando o que é preciso corrigir, inflamando a sua vontade no amor ao bem e à verdade, tomando uma resolução em conformidade com o que foi meditado e pedindo ajuda a Nosso Senhor, a Nossa Senhora e aos Santos para que possa cumprir a resolução. A meditação católica não é yoga nem meditação transcendental, que negam a razão e buscam, no fundo, a ausência de qualquer desejo. A meditação católica consiste, ao contrário, em usar a nossa razão e a nossa vontade, auxiliadas pela graça, para que possamos amar a Cristo e a verdade e sofrer por Ele e pela verdade, como Ele nos amou e sofreu por nós.

É, então, pela santidade, caros católicos, que podemos combater a crise e restaurar tudo em Cristo. É a santidade a verdadeira solução. É a santidade que supõe uma fé viva, que supõe o conhecimento da doutrina católica. É a santidade que faz todas as coisas para que Deus seja mais conhecido, amado e servido. É a santidade que ajuda o nosso próximo a alcançar o céu.

Se Deus permite tantos males, é para que possamos tirar deles um bem superior, que é uma fé mais firme, diante de um mundo descrente. Ele quer também que tenhamos uma grande esperança na sua bondade e misericórdia, sempre prontas para nos socorrer. Ele quer que tenhamos uma confiança completa na sua divina providência que governa todas as coisas. Ele quer que diante dos males, nos unamos a Ele, que é o bem infinito. Diante da crise e dos males, não devemos nos paralisar, nos desanimar, nos desesperar, achar que está tudo perdido. Ao contrário, devemos fazer todo o bem que podemos e devemos fazer aqui e agora. Devemos fazer todo esse bem com entusiasmo e alegria, sem nos deixar abater. Já é hora de nos levantarmos do sono, como diz São Paulo. Nosso exemplo, nesse tempo do advento, que é extremamente mariano, deve ser Nossa Senhora, inabalável durante a paixão e morte de Cristo, aguardando com fé viva e esperança firme a ressurreição. Nesse tempo de paixão da Igreja, devemos nos manter firmes na fé, na esperança, na caridade, sabendo que a verdadeira solução é o apostolado que decorre da santidade, que é fruto dela. Busquemos a verdadeira solução, caros católicos, que é a santidade.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

São Pio V

Sermão 1º Domingo do Advento – Padre Daniel Pinheiro.

[Sermão] Advento: A verdadeira solução é a santidade

Ser Igreja


Diocese de Iguatu – Ce

Paróquia de São João Batista, Cedro – Ce.

Pastoral do Batismo

Tema: Ser Igreja

“Crer que a Igreja é “santa” e “católica” e que ela é “una” e “apostólica” (…) é inseparável da féem Deus Pai, Filho e Espírito Santo” (CIC 750), portanto para saber como “ser Igreja” precisamos antes saber o que é a Igreja e “de onde veio e para onde vai”.

Þ   O que é “Igreja”.

  • A palavra “Igreja” [“ekklésia”, do grego “ekkaléin” – “chamar fora”] significa “convocação”. Designa assembléias do povo, geralmente de caráter religioso. (…) Ao denominar-se “Igreja” a primeira comunidade dos que criam em Cristo se reconhece herdeira dessa assembléia. (CIC 751)
  • A palavra “católica” significa “universal” no sentido de “segundo a totalidade” ou “segundo a integralidade”. (…) (Confira CIC 830)

Þ   Origem e formação da Igreja.

  • (…) “Todos os que crêem em Cristo, o Pai quis chamá-los a formarem a santa Igreja”. Esta “família de Deus” se constitui e se realiza gradualmente ao longo das etapas da história humana, segundo as disposições do Pai. Com efeito, “desde a origem do mundo a Igreja foi prefigurada. Foi admiravelmente preparada na história do povo de Israel e na antiga aliança. Foi fundada nos últimos tempos. Foi manifestada pela efusão do Espírito. E no fim dos tempos será gloriosamente consumada” (CIC 759).
  • (Mas) a Igreja nasceu primeiramente do dom total de Cristo para nossa salvação, antecipado na instituição da Eucaristia e realizado na Cruz. “O começo e o crescimento da Igreja são significados pelo sangue e pela água que saíram do lado aberto de Jesus crucificado”. “Pois do lado de Cristo dormindo na Cruz é que nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja. Da mesma forma que Eva foi formada do lado de Adão adormecido, assim a Igreja nasceu do coração traspassado de Cristo morto na Cruz”. (CIC 766)

Þ   A manifestação da Igreja.

  • Terminada a obra que o Pai havia confiado ao Filho para realizar na terra, foi enviado o Espírito Santo no dia de Pentecostes para santificar a Igreja permanentemente. Foi então que a Igreja se manifestou publicamente diante da multidão e começou a difusão do Evangelho com a pregação. Por ser “convocação” de todos os homens para a salvação, a Igreja é, por sua própria natureza, missionária enviada por Cristo a todos os povos para fazer deles discípulos. (CIC 767)

Þ   O mistério da Igreja

  • A Igreja é ao mesmo tempo visível e espiritual, sociedade hierárquica e Corpo Místico de Cristo. Ela é uma, formada de um elemento humano e um elemento divino. Somente a fé pode acolher este mistério.

      A Igreja é no mundo presente o sacramento da salvação, o sinal e o instrumento da comunhão de Deus e dos homens. (CIC 779-780)

Retratando de uma maneira simplória a Igreja esta basicamente “segmentada” desta maneira:

Þ   Com ser Igreja?

Assim como nenhum médico pode dizer: “Sou a Medicina”. Assim também nenhum católico pode se dizer A Igreja.

    O Papa é o chefe da Igreja, Vigário de Cristo. Ele representa a Igreja, mas não é a Igreja. Até se diz “Onde está o Papa, aí está a Igreja”, Ubi Petrus, ibi Eclaesiam. Mas Ele é o representante de Cristo, não é o próprio Cristo.

    O Clero é a parte docente da Igreja. É ao Clero que cabe governar, pastorear as ovelhas de Cristo, ensinar, administrar os sacramentos. Mas o Clero, sendo a parte mais importante da Igreja, continua a ser parte da Igreja e não propriamente a Igreja.

    Nós, os leigos, somos a parte inferior da Igreja, a parte dirigida, ensinada. Nós só devemos e podemos repetir o que o Papa e o Clero fiel ao Papa ensina da doutrina de Cristo.

    Nós nos portamos corretamente como membros da Igreja, quando cremos e ensinamos a nosso próximo tudo que a Igreja ensina; quando praticamos a lei de Deus e da Igreja, vivendo, o quanto possamos na graça de Deus, freqüentando os sacramentos; quando procuramos viver para defender a Fé Católica, e difundi-la o quanto possamos, na medida de nossas forças, custe o que custar, dando bom exemplo de vida católica, na obediência dos legítimos pastores da Igreja que são o Papa, acima de tudo, e os Bispos em união com o Papa. (Fonte)

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O que significa “Igreja Católica”?


Se alguém lhe interrogar sobre sua religião, creio eu que você será pronto em responder: “-sou católico!”. O triste é que após essa pergunta vem logo outra: “-praticante?”. Mas o que quero analisar nesse breve artigo não é isso (quem sabe em outro), mas sim sobre a palavra católico. Também não é sobre o que é ser católico, mas restritamente, o significado desta palavra, e, para ser fiel ao título deste artigo, o siginificado de “Igreja Católica”.

Na Bíblia encontraremos a palavra “igreja”  85 vezes, e todas elas no Novo Testamento. A primeira vêz que esta palavra é citada na Bíblia é por nada mais, nada menos que Nosso Senhor Jesus Cristo, veja:
E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mt. 16, 18)

Recorrendo ao Catecismo da Igreja Católica, e esta sitação você poderá encontrar também lendo o post sobre Ser Igreja, temos que:
A palavra “Igreja” [“ekklésia”, do grego “ekkaléin” – “chamar fora”] significa “convocação”. Designa assembléias do povo, geralmente de caráter religioso. (…) Ao denominar-se “Igreja” a primeira comunidade dos que criam em Cristo se reconhece herdeira dessa assembléia. (CIC 751)

Então fica bem claro, que a palavra Igreja significa chamado, convocação, no nosso caso, convocados/chamados por Jesus Cristo. Aí entramos na segunda palavra: Católica.

Chamados por Jesus para fazer o quê e a quem? Êis a resposta:

Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” (Mt. 28, 19)

“(…)e ensinai a todas as nações” ou seja a todo mundo, ao universo. Jesus confia a Sua Igreja sua missão, seu chamado, sua convocação de anunciar o Evangelho, repito, ao universo, e é aí que por este motivo sua Igreja recebe o nome de Igreja Católica. Ainda não ficou claro né. Lendo esta citação do Catecismo da Igreja Católica ficará melhor de entender:

• A palavra “católica” significa “universal” no sentido de “segundo a totalidade” ou “segundo a integralidade”. (…) (Confira CIC 830)” e consequentemente “Por ser “convocação” de todos os homens para a salvação, a Igreja é, por sua própria natureza, missionária enviada por Cristo a todos os povos para fazer deles discípulos. (CIC 767)

Repito mais uma vês: “A palavra “católica” significa “universal” .

 

Unindo então, caros leitores, o significado da palavra Igreja à palavra Católica temos que ela é “convocação” de todos os homens para a salvação“.

E é exatamente por isso que na Bula Unam Sanctam de 1302, o papa Bonifácio VIII diz: “Una, santa, católica e apostólica: esta é a Igreja que devemos crer e professar já que é isso o que a ensina a fé. Nesta Igreja cremos com firmeza e com simplicidade testemunhamos. Fora dela não há salvação, nem remissão dos pecados, como declara o esposo no Cântico: “Uma só é minha pomba sem defeito. Uma só a preferida pela mãe que a gerou” (Ct 6,9). Ela representa o único corpo místico, cuja cabeça é Cristo e Deus é a cabeça de Cristo.

Tendo em vista o expoto, se alguém se deparar com você e lhe interrogar: “-Onde existe a palavra católica na Bíblia?” você estará pronto a responder “-Leia Mt. 28, 19, e lá você verá, não a palavra católica, mas o seu significado:Universal, a todas as nações

Que Maria, Nossa Senhora, Nossa Mãe e Mãe da Igreja de Jesus Cristo, interceda por nós e pela salvação dos homens, Amém!

Qeu Deus nos abençoe e Maria nos guarde!

Moisés Gomes de Lima, catquista da Paróquia de S. João Batista, Cedro-CE.

Graça de Deus


Diocese de Iguatú – Ce
Paróquia de São João Batista, Cedro – Ce.
Pastoral do Batismo
Palestrante: Moisés Gomes de Lima, catequista.

§1996 Nossa justificação vem da graça de Deus. A graça é favor, o socorro gratuito que Deus nos dá para responder a seu convite: tomar-nos filhos de Deus, filhos adotivos participantes da natureza divina, da Vida Eterna.

§1997 A graça é uma participação na vida divina; introduz-nos na intimidade da vida trinitária. Pelo Batismo, o cristão tem parte na graça de Cristo, cabeça da Igreja. Como “filho adotivo”, pode doravante chamar a Deus de “Pai”, em união com o Filho único. Recebe a vida do Espírito, que nele infunde a caridade e forma a Igreja.

§1998 Esta vocação para a vida eterna é sobrenatural. Depende integralmente da iniciativa gratuita de Deus, pois apenas Ele pode se revelar e dar-se a si mesmo. Esta vocação ultrapassa as capacidades da inteligência e as forças da vontade do homem, como também de qualquer criatura.

§1999 A graça de Cristo é o dom gratuito que Deus nos faz de sua vida infundida pelo Espírito Santo em nossa alma, para curá-la do pecado e santificá-la; trata-se da graça santificante (…), recebida no Batismo. Em nós, ela é a fonte da obra santificadora:

“Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova. Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por Cristo” (2Cor 5,17-18).

§2000 A graça santificante é um dom habitual, uma disposição estável e sobrenatural para aperfeiçoar a própria alma e torná-la capaz de viver com Deus, agir por seu amor. Deve-se distinguir a graça habitual, disposição permanente para viver e agir conforme o chamado divino, e as graças atuais, que designam as intervenções divinas, quer na origem da conversão, quer no decorrer da obra da santificação.

Graça do Batismo

§1262 Os diferentes efeitos do Batismo são significados pelos elementos sensíveis do rito sacramental. O mergulho na água faz apelo ao simbolismo da morte e da purificação, mas também da regeneração e da renovação. Os dois efeitos principais são, pois, a purificação dos pecados e o novo nascimento no Espírito Santo.

§1263 Pelo batismo, todos os pecados são perdoados: o pecado original e todos os pecados pessoais, bem como todas as penas do pecado. Com efeito, naqueles que foram regenerados não resta nada que os impeça de entrar no Reino de Deus: nem o pecado de Adão, nem o pecado pessoal, nem as seqüelas do pecado, das quais a mais grave é a separação de Deus.

§1264 No batizado, porém, certas conseqüências temporais do pecado permanecem, tais como os sofrimentos, a doença, a morte ou as fragilidades inerentes à vida, como as fraquezas de caráter etc., assim como a propensão ao pecado, que a Tradição chama de concupiscência ou, metaforicamente, o “incentivo do pecado” (fomes peccati”): “Deixada para os nossos combates, a concupiscência não é capaz de prejudicar aqueles que, não consentindo nela, resistem com coragem pela graça de Cristo. Mais ainda: ‘um atleta não recebe a coroa se não lutou segundo as regras’ (2Tm 2,5).

§1265 O batismo não somente purifica de todos os pecados, mas também faz do neófito “uma criatura nova”, um filho adotivo de Deus que se tornou “participante da natureza divina”, membro de Cristo e co-herdeiro com ele, templo do Espírito Santo.

§1266 A Santíssima Trindade dá ao batizado a graça santificante, a graça da justificação, a qual:

* torna-o capaz de crer em Deus, de esperar nele e de amá-lo por meio das virtudes teologais;

* concede-lhe o poder de viver e agir sob a moção do Espírito Santo por seus dons;

* permite-lhe crescer no bem pelas virtudes morais.

Assim, todo o organismo da vida sobrenatural do cristão tem sua raiz no santo Batismo.

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